10 julho 2007

Desculpe, eu sei que é de borla, mas que língua é essa?



Algo que aprecio com algum afinco é o conceito do jornal gratuito. Em boa parte porque não parece fazer sentido pagar pelo jornalismo excrementício que de modo generalizado se difunde em Portugal, cortesia de políticas editoriais e salariais que amiúde deixam de fora os melhores do ofício.

E se, durante muito tempo, não tive oportunidade de realizar percursos pedonais onde se amontoam os meninos e meninas das camisolas coloridas, panamás e promoções (actualmente, são quatro títulos a competir pelo leitor, sendo um deles desportivo), no momento presente sou agraciado todos os dias com todos os exemplares que quiser de todas as publicações em causa.

Praticamente todos os dias consigo imaginar cenas de pancadaria, conspiração e traição entre os mais diversos ardinas destes novos veículos de comunicação de digestão rápida. Imagino cascas de banana ou, no limite, minas anti-pessoais no caminho desses ardinas, com companheiros de profissão escondidos atrás de árvores esperando o momento do traumatismo ou da liminar explosão para de lá saírem e, com um sorriso, dizerem "bom djia" com um jornal em riste para oferecer.

Isto tudo a propósito do anúncio acima mostrado, tal como saiu na edição de terça-feira do Metro. É que senti necessidade de falar com o leitor, de dar-lhe uma explicação, de dizer-lhe que raio de coisa vem a ser esta. Estimado leitor: apesar de parecer dirigir-se a si, o anúncio em causa não é para si. O leitor não será certamente mentecapto e saberá que, não sendo pago, um jornal gratuito vive, essencialmente, da publicidade que angaria (e aqui não incluo as garrafas de água com gás ou os mini-pacotes de batatas fritas que de vez em quando acompanham a leitura e que também são fonte de graveto).

Assim, quando o Metro diz "623 mil vezes obrigado!", está na realidade a dizer: "senhores anunciantes: parecendo que estamos a agradecer a gentileza dos nossos leitores, estamos, na realidade, a dizer-lhe que somos os maiores e que, por isso mesmo, é aqui que deve anunciar e não num dos outros diários gratuitos". Mais: achará o distinto leitor que, ao mencionar coisas como "circulação" e "audiência", está o jornal a falar a sua língua? Saberá o cidadão distinguir uma coisa da outra ou, tão somente, definir cada uma delas? Calculei.

No fundo, caríssimo leitor, venho por este meio apenas dar-lhe uma triste notícia: não são poucas as vezes em que o seu jornal preferido ocupa espaço a falar para toda a gente menos para si. Não se queixe, apesar de tudo. É de borla.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

6 comentários:

  1. Não sei se foi sua intenção deixar-lhes (à Porto Eventos) alguma indirecta com o "não será certamente mentecapto", mas por mim, enquanto leitora pesarosa com o fim do UM, e falando português polido, eles bem podiam tratar de enfiar a carapuça até um sítio que eu cá sei.

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  2. Cara Paula:

    Como eventualmente saberá, não tenho muitos problemas em falar aqui abertamente sobre aquilo que sei.

    Daí que não tenha havido, na passagem que refere, qualquer intenção camuflada, qualquer mensagem codificada com destinatário encoberto.

    Obrigado por ter vindo.

    Cheers!

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  3. Interessante saber como está funcionando aí em Portugal. No Brasil não temos a tradição do jornal gratuito. O Metro chegou ao Brasil há poucos meses, por meio do grupo Bandeirantes. Vamos ver como vai ficar a briga publicitária aqui.
    Abraços.

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  4. Olá Pedro:)

    Aproveito este tema dos jornais gratuitos para expor uma cpoisa que me faz confusão sempre que ando de metro.
    Por ser gratuito quase toda a gente lhe pega, mas depois... Depois deixam os jornais em todo o lado. Umas vezes ainda dá para ler quando não apnhámos um ou quando um título nos chama a atenção. Mas com isto do gratuito dá-me a sensação que o desperdício de papel é realmente pouco relevante... Para a publicidade então, nem se fala...

    **

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  5. Olá Pedro,

    Tendo trabalhado no meio das agências de comunicação só posso dizer..."como o compreendo". Você tem toda, e mais alguma, razão. Mas isso, é claro, você já sabia.

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  6. olá
    Gostei do seu post. Ando todos os dias de transportes público e gosto de folhear os jornais gratuitos. Revolta-me o lixo que que os utilizadores fazem (postarei um dia sobr eisso) mas terei que confessar que á conta destes jornais encontramos mais gente a ler.
    E claro que sendo gratuito para nós é rentável para eles, se naõ pensemos no número crescente de borlas jornaleiras que nos oferecem todos os dias, de manhã e ao fim do dia.
    bom domingo

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