28 maio 2006

Aguas de Maio

Guns N' Roses

Os juízos precipitados podem ser uma coisa muito desagradável. Felizmente, no caso dos Guns N' Roses, indissociáveis do telenovelesco silêncio editorial a que se têm dedicado, precipitação é factor que não se aplica.

Vem isto a propósito do Rock in Rio Lisboa, que está para ali a acontecer na televisão e, ao que parece, num espaço vagamente parecido com um parque de diversões musicado. De passagem pela SIC Radical, um Axl Rose em fase pré-reforma anuncia que vai sentar-se ao piano. O que já de si é preocupante torna-se particularmente grave quando começa a interpretar o, digamos, clássico "November Rain". O que faz pior é difícil de distinguir, se cantar, se assentar os dedos sobre as teclas. O piano soa mal como dificilmente se ouve onde quer que seja e a voz da criatura não coloca mais do que duas ou três notas no lugar certo ao longo de alguns minutos. Medonho. Como medonho é, um nadinha mais à frente, a estridente interpretação do, digamos, clássico "You Could Be Mine", agora já com todos os instrumentos e respectivos tiques de um grupo de rock'n'roll absolutamente anacrónico. E "Patience", outro, digamos, clássico, soa como soa uma banda treinada que ensaia pela primeira vez com um cantor.

A entremear a coisa, os meus camaradas Diogo Beja e Nuno Calado vão explicando que o novo (inserir gargalhada aqui) álbum, Chinese Democracy, não pode ser objecto de transmissão, daí os pontuais intervalos. Não há qualquer problema, qualquer drama, qualquer ansiedade. Depois de ouvido o que fizeram em Lisboa neste mês de Maio de 2006, as tristes cenas passadas há mais de uma década no antigo Estádio de Alvalade tomam agora contornos premonitórios. E uma vida completa o seu círculo.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

23 maio 2006

Quiz

Body Rockers

Aqui há uns anos, não sei bem quantos por causa dos drunfos, disseram-me que era gajo para padecer de umas maleitas modernaças, tipo crises de pânico e ansiedade. As duas, porque parece que não são uma e a mesma coisa. Ora isto não é nada simpático. A sério, transforma a vida de um gajo, constrói medos nas condições mais improváveis e que antes implicavam prazer, entre diversas outras coisas pouco agradáveis. Por essas e por outras é que tenho tido algum cuidado com as emoções. Ou seja, da mesma forma que tento abstrair-me da identidade do novo treinador do Benfica, também há muito que decidi que não saltaria para o chão de algo mais alto do que um escadote dos pequenitos. Quis, infelizmente, o Quiz desta semana do Espaço Portela que eu e o combo TV Rural experimentássemos um misto de bungee jumping e queda livre. Aquilo que de positivo retiro da experiência é que, nestas circunstâncias, fico muito mais irritado do que ansioso. Devem ser bons, os comprimidos. Na prática, caímos do primeiro para o sexto lugar. Assim, sem espinhas, sem dúvidas e sem discussões. E a uma distância invejável do Clube da Latrina, eternos concorrentes de superiores prestações. Esta segunda-feira, nem a música foi mãe amiga. Começando pelo resto, era bom que soubéssemos em que lugar ficaram as moças portuguesas na edição última da Eurovisão, uma intrincada definição técnica do laser ou o nome da capital do estado brasileiro de Paraíba. Musicalmente, estou em condições de afirmá-lo, foi a pior prestação de sempre, mesmo que a ignorância em certas áreas seja merecedora de uma insígnia de Mérito Estético. Concretamente, sabe Deus que Paulo Gonzo se chama Alberto Ferreira Paulo, quem são a porra dos Body Rockers, que os telemóveis se vendem à custa dos Veils ou que os Whitesnahe e os Def Leppard não são uma e a mesma coisa. Na prática, valeu reconhecer os inenarráveis Live e uma definição muito vaga do meu amado reggae. No entanto, vou dizer à psicóloga que estou muito melhor. Já não sinto pânico, apenas fúria.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

21 maio 2006

Nham nham...

Jackie Mittoo

Os tributos são, regra geral, uma monumental excreção intestinal. Este é, apenas, uma feijoada de choco ao jantar de um dia sem almoço. Um pitéu.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

Eu nao vou

Onde não sou convidado. Não tenho dinheiro para essas coisas.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

Fim-de-semana alucinante

Lordi

As três pessoas e meia que têm por hábito acompanhar os escritos que produzo saberão, por esta altura, que juntar frases na primeira pessoa do singular não é actividade em que sinta particular à vontade. Há, dentro de mim, sempre um feroz guerreiro tresloucado que defende que isso é coisa que não se compatibiliza com a actividade jornalística, que tanto prezo. Mais complicado se torna, portanto, usar a primeira pessoa do singular e falar dessa entidade, do que faz, do que fez, do que pensa, etc. Mas, de repente, ocorre-me que às tantas um blog serve para isso. E daí a partilhar algumas experiências de fim-de-semana é um passito de nada.

Lá pelas duas da manhã de sexta para sábado, e por coincidência cósmica de calendário, estava a ver e ouvir o colectivo Buraka Som Sistema (simpático aportuguesamento da vetusta tradição jamaicana dos sound systems) no Clube Mercado, em Lisboa. Por razões profissionais que mais para o Verão se perceberão, descobrir no próprio dia a ocorrência de semelhante evento não poderia resultar em indiferença ou preguiça. O facto de ter entrada gratuita teve também o seu peso na deslocação, obviamente, uma vez que no momento presente só é possível gravitar num raio de acção de uns cinco euros. Buraka Som Sistema, então.

Bela escolha para um serão. Devidamente acompanhado por um daqueles raros amigos que se disponibilizam a descobrir qualquer coisa que não conhecem, nem o celibato alcoólico impediu que, de um momento para o outro, estivesse yours truly a tentar fazer qualquer coisa de muito distante daquilo que se entende por dançar o kuduro. Porque é disso mesmo que trata o Buraka Som Sistema, de uma bomba atómica energética que, apesar de ainda perfeitamente underground, pode ser sem exagero comparado, como fenómeno, à explosão que nos últimos anos se deu no universo do funk de favela brasileiro. Rude, rudimentar, carnal e vertiginoso. Como diziam os outros, "É som de preto, de favelado/ Mas quando toca ninguém fica parado". É exactamente isto.

Melhor: é isto à excepção da referência ao preto. As tais três pessoas e meia que acompanham as minhas prosas sabem também que praticamente nada me surpreende mais do que quatro ou cinco pontos percentuais. Um desses raros casos deu-se, porém, na noite em questão. Tendo o humilde signatário vivido mais de meio século ao lado da Buraca, louco seria se não fosse ali para a Rua das Taipas na esperança de encontrar uma cave fumarenta, de atmosfera pesada apesar da destilação de prazer carnal, cheia de pretos (elogio). Onde encaixam então os sapatos de vela, os betos e as betas que em boa parte preencheram o espaço é, por isso, coisa cuja explicação me ultrapassa. Mas, tenho a certeza, foi coisa que inibiu um deleite maior. O Buraka Som Sistema, onde é bom ver Kalaf no papel de MC que se limita a debitar frases triviais, ele que para alguns cépticos é um bluff como diseur e intérprete de canções, é uma festa do cacete. Ao lado de Kalaf, discos que trituram kizomba e elementos tecno parcimoniosos e mais duas vozes, uma delas feminina a acompanhar movimentos de manifesta provocação dos sentidos.

Feita a noite, sabia que sábado era dia em que no Hattrick tinha vitória assegurada por falta de comparência do adversário. Mas a noite foi mágica, apesar de tudo. Foi noite de Eurovisão, ou da final do concurso, segundo percebi. Concluí, então, que eu e a Eurovisão estivemos este ano em absoluta sintonia, apesar de o amor que a dita me tem não ser correspondido. Num dia qualquer da semana que passou, numa suposta meia-final em que felizmente Portugal ficou pelo caminho (é assim que prefiro, como já expliquei noutra ocasião), dediquei-me a ver a primeira corrida de touros que reabriu o Campo Pequeno (sim, gosto de tourada) e que a TVI transmitiu. Num momento de fortuna suprema, um curto zapping pôs-me frente-a-frente com um grupo inenarrável que concorria à Eurovisão. Percebi que eram finlandeses, que tocavam um rock que já não se usa desde os Kiss e que, com delícia, ostentavam vestimentas que tanto faziam lembrar Alice Cooper quanto uns inqualificáveis Slipknot. É verdade. Era o Festival da Canção. Achei-lhes um piadão. Mesmo. Para a minha relação com o certame, uma coisa daquelas era o quintessencial sublinhar do ridículo.

Entretanto, sábado à noite. Decorria a tal final. O meu jogo no hattrick já estava acabado (com o proverbial 5-0) e procedia-se à votação very typical do universo Eurovisão, aquela sequência em que gente em cenários Photoshop começa uma alocução com a frase "and these are the results of the (...) juri". Espantosamente, a Finlândia, único país cujos representantes havia visto actuar dias antes, lideravam com largueza e preparavam-se para ganhar a coisa. Fiquei extasiado até ao final, numa frenética urgência de ver aquele aborto musical pseudo-conceptual fazer a intervenção final, receber ramos de flores à boa maneira do black metal nórdico e erguer uma qualquer peça de cristal que normalmente está sempre presente entre os troféus. E assim foi. Fiquei não menos do que maravilhado. Absolutamente maravilhado. Com isso e com Eládio Clímaco, homem com eternas saudades da Eurovisão "á séria" e dos Jogos Sem Fronteiras. Chamava-lhes montros de dois em dois minutos, fazia ironia com as fornadas de 12 pontos que arrecadavam à vez. Uma delícia que teria detestado não ver. Com a Eurovisão e estes concursos de canções definitivamente corrompidos e esventrados com tamanho descaramento, a alegria era difícil de conter. Eládio Clímaco tratou de fazê-la explodir quando contribuiu para o ridículo da coisa ao afirmar, duas vezes em 10 minutos, que para o ano a coisa decorre na Finlândia. Em Reykjavic, disse. Precisamente a capital da Islãndia.

Um domingo de frisbee e playstation com o filhote está a terminar. Com os Globos de Ouro ali de esguelha, que o coração já não dá para tanto absurdo seguido. O que vale a pena registar, no que às coisas que me interessam diz respeito, é que pela primeira vez na História da cerimónia a Impresa se lembrou que tem no seu espólio uma publicação musical, tendo este ano convidado o actual director do/a Blitz para integrar o júri de Música. Não me digam que o mundo não é um lugar maravilhoso...

(Omiti propositadamente o tiro na nuca que levei ao ver Fernando Santos ser apresentado como novo treinador do Glorioso).

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

19 maio 2006

Actividade socio-cultural do dia

Buraka Som Sistema

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

17 maio 2006

A final

Arsenal

Já conheço a história de trás para a frente. "O Arsenal? ****-se!", "Que equipa de *****" e "Não tem hipótese" são frases recorrentes nas últimas semanas.

Against all odds, e como sempre, quero o Arsenal no topo de mundo. Hoje, na final da Liga dos Campeões entram a perder por 10-0, a avaliar pela confiança dos infiéis. É-me indiferente.

Come on, you gunners!

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

"And her hearing aid started to melt..." Vol. XV

Sonotone do dia:

Matisyahu

Matisyahu: Youth (Março 2006)

Veredicto:

Só para o improvável caso de o gentil leitor não ter dado por isso, a Globalização já existe. Tem coisas porreiras, tem coisas desagradáveis e tem coisas estranhas. Ou seja, é uma espécie de cocaína geográfica e cultural. Ora é precisamente essa Globalização que faz com que, a 22 de Junho, possa o cidadão português ver um espectáculo de Matisyahu no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Incluindo-o no raciocínio, Matisyahu é uma das coisas estranhas da Globalização, para não dizer da Civilização. A diplomacia far-me-ia dizer a coisa de outra maneira, mas a economia de espaço obriga-me a dizer, sucintamente, que Matisyahu é um praticante judeu norte-americano que escolheu, vamos lá, uma forma maioritariamente jamaicana para exprimir-se - o roots reggae, o dancehall, o ska ou um pedacinho de cada um. A revista Esquire (que não deixa de não constituir exemplo para ninguém) chamou-lhe "o mais misterioso artista do reggae do mundo". Tem razão. E, no meio disto tudo, Matisyahu soa mais aos meus preciosos Sublime infectados pelos piores tiques do rock à conta de convictas facadas infligidas por Sizzla do que a uma coisa, digamos, jamaicana. É conferir, sobretudo, o álbum Live at Stubbs, do ano passado (certamente um dos poucos discos ao vivo que aqui mencionarei; detesto-os). Bom, Youth é o segundo álbum de estúdio de Matisyahu e, logo para começar, é em boa parte produzido por Bill Laswell, o homem que tanto é capaz de produzir um dub de fino recorte como de assassinar as canções de Bob Marley. E é um disco que anda perfeitamente entre aquilo que para aqui estou a escrever. O problema é que Life at Stubb's, mesmo sendo "ao vivo", continua a soar muito melhor do que Youth, que, lá para meio, começa a fabricar viscosidade. Mas dizer que Matisyahu é uma coisinha má é exagerado. Não é uma coisinha má. Também no rock cristão não há-de ser tudo uma trampa, suponho. Matusyahu é um jovem de 26 anos, bem intencionado e que sabe fazer a sua coisa, que é apropriar-se do património jamaicano para emitir mensagens de paz e amor e essas coisas. Isso é, digamos, bom. Mas como quem não é purista em relação à música jamaicana não a ama verdadeiramente, há por Youth elementos que Lee "Scratch" Perry dispensaria sem hesitar. Realmente a sério, Matisyahu é um gajo para descobrir. Para ficar a conhecer em parte, pelo menos, já que o retrato completo não se lhe tira com facilidade. E atente o estimalo leitor que no dia 22 de Junho a coisa não deve ser nada má no Coliseu dos Recreios, se conseguir hibernar numa abstracção em relação à "geração Gentleman". 69,3% de satisfação garantida.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

16 maio 2006

Segredo

Fátima

Uma das piores coisas que pode acontecer é a um blogger é sentir a obrigação de andar atento a tudo o que o rodeia para assim encontrar uma justificação para mitigar o sentimento de culpa derivado do facto de andar sem escrever. Pois a mim já me aconteceu. Fica esclarecido. Não sei se foi essa patologia que aqui me fez regressar com tanta brevidade, mas a possiblidade existe.

Estava ali a ver o "Levanta-te e Ri", sempre naquela esperança dolente de encontrar um novo Bruno Nogueira, e estava o Carlos Moura (digo "o" porque, confesso, tenho uma relação relativamente estável com o programa) a falar do passado 13 de Maio, feriado, Fátima, aparição, etc. O patuá envolvia, naturalmente, umas palavras dedicadas às lojas de souvenirs que dão colorido à paisagem de Fátima. E aí, como descrente, lembrei-me de uma ida familiar a Fátima que envolveu passagem por uma dessas santas fileiras comerciais. Depois, lembrei-me que havia uma ligação qualquer entre a minha descrença e aquilo que lá fiz quando era puto e não sabia patavina sobre ironia.

O único objecto com a imagem de Fátima que alguma vez foi meu foi-me oferecido dessa vez e era um canivete de tamanho nada desprezível e com duas lâminas que cortavam de facto.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

Quiz

Falco

(Regressando às desculpas vagamente verdadeiras enunciadas há exactamente uma semana para justificar alguma negligência intelectual neste espaço por parte de quem o assina, devo esclarecer que devem existir novidades a apresentar em breve. Ou podem, vá lá, aqui surgir novidades. Depende um pouco da votade. Quer dizer, depende também do tempo e da ausência dele, mas é lógico que aqui têm que estar pérolas como as minhas seminais think pieces, as análises críticas denominadas And Her Hearing Aid Started to Melt. Mas há mais coisas, acho eu. Há coisas boas para aqui colocar, parece-me. Por exemplo, eu estaria, caso fosse o gentil leitor, atento ao que dentro de pouco tempo começará a passar-se no antigo bar Fremitu's, no Bairro Alto, em Lisboa. Quem avisa...)

Estabilizado o já histórico porém discreto combo intelectual TV Rural com uma formação idêntica durante duas semanas consecutivas, o resultado de mais uma presença no Quiz semanal do Espaço Portela voltou a ser uma aventura abrilhantada pela mais elementar justiça. O que significa, mais exactamente, que ganhámos aquilo. Apesar de partilhado com o também valoroso Clube da Latrina, o triunfo do TV Rural recoloca a verdade desportiva no local de onde a dita não devia ter saído. Com vantagem respeitável sobre os segundos classificados, como é desejável, com sabedoria galopante aplicada a diversas áreas do conhecimento, como deve ser. Uma categoria e um primor. A coisa poderia ter sido melhor se, para que hoje tivesse mais dinheiro para gasóleo por via de um não-ex-aequo, se tivéssemos respondido acertamente a questões que se prendiam como um designação científica de algo que nem me recordo habitualmente de possuir, a vesícula; o nome de uma porra de um fenómeno luminoso que acontece lá para o Sol Poente; ou quantas vacas pintadas estão exactamente espalhadas por várias partes de Lisboa (evitar o pensamento fácil e genital). No capítulo musical, pode dizer-se que o pleno foi semi-atingido. Se é certo que ninguém fazia orgulhosamente ideia do nome do mais recente disco de Paulo de Carvalho, supostamente dedicado aos seus êxitos, não deixámos de com soberba demonstrar conhecer o nome das Nonstop quando se quer saber quem representará Portugal naquilo da Eurovisão este ano. No que à música tocada diz respeito, saíram com relativa tranquilidade as respostas alusivas à identificação de Eve, do finado Falco, de Manuel Freire (cuja "Pedra Filosofal" ainda valeu a este subscritor um delicioso Ice Tea Green como resultado de uma aposta) e dos sempiternos Stereo MC's. O Engº Sousa Veloso, de quem ninguém sabe há meses, diz que sem ele nunca triunfávamos. O Engº Sousa Veloso está suspenso da equipa.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

09 maio 2006

Quiz

Opus

A gentil audiência perdoará, ou não (na realidade, é-me indiferente) algumas ausências prolongadas no que à escrita para este espaço diz respeito. É que, como sabe o condescendente leitor, há na vida por vezes elementos muito mais importantes do que a urgência de alimentar um blog. Refiro-me, por exemplo, a mimar quem nos é verdadeiramente querido, a juntar palavras cujo resultado normalmente proporciona retorno financeiro, a lidar com imbecis poderosos ou a contar amigos que desaparecem quando são procurados. Depois há, claro, as tradições, como voltar a casa e falar do regresso às pontualmente interrompidas sessões semanais do Quiz do Espaço Portela. Para um regresso, a coisa não correu mal. Em forma a melhorar, sem o Engº Sousa Veloso mas com uma presença feminina que me é particularmente cara, o combo intelectual TV Rural arrancou um mais do que honroso segundo lugar. Que soube bem, tendo em conta que o primeiro ficou a quatro respostas certas de diferença e só um milagre faria com que tiros de sorte valessem o cume do pódio. Entre os quatro conhecimentos necessários à vitória (cinco se quiséssemos erguer o troféu sem concorrência), constavam: conhecer uma porra de uma definição científica para a maleita do milénio, a celulite; qual o símbolo químico do mercúrio; ou o nome por que ficou conhecido o maior massacre da Guerra Colonial. Em matéria puramente musical, faltou chegar ao nome dos Big Mountain (falha pela qual penarei longas semanas), uma vez que o resto dizia respeito aos seminais austríacos Opus (ironia) e à eterna dupla composta por John Travolta e Olivia Newton-John. Não perca o estimado leitor a esperança de aqui ir encontrando novidades, que eu também não a perco.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

03 maio 2006

O/A Blitz, agora por quem sabe o que diz

Só agora o li, mas em boa hora o fiz. Jorge Manuel Lopes, quem mais?, disserta sobre o passamento e anunciada ressurreição no valiosíssimo A Vítima Respira?.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

02 maio 2006

Impalados Vol. MCCXXXLVIII

Impala

Não sendo novidade, a prática destas bizarrias não deixa de merecer divulgação em massa. Há sempre a esperança de que alguém exija um comprovativo de sanidade mental ao cavalheiro.

Noticia hoje a Meios & Publicidade:

'O Sindicato de Jornalistas (SJ) emitiu um comunicado onde denuncia que o “patrão da Impala ofende directores”. Segundo o SJ, Jacques Rodrigues terá enviado uma comunicação interna com o intuito de transformar “os directores das suas publicações em controladores de saída dos jornalistas”.

Esta norma, que terá entrado em vigor a 27 de Março, “impõe que os directores preencham um documento de autorização de saída do edifício Impala”. Para o SJ o “Documento de saída do Edifício Impala”, que implica ainda a explicação do “motivo de saída”, constitui “uma violação grosseira da reserva do trabalho jornalístico e até uma humilhação dos directores e dos jornalistas”.

O Sindicato acusa ainda Jacques Rodrigues de agir “como se não fosse possível acontecer nas suas redacções o que acontece em qualquer redacção”. No mesmo documento, o SJ “expressa a sua solidariedade para com os jornalistas da Impala e apela para que se reorganizem na defesa dos seus direitos”'.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

26 abril 2006

Onanismo mental

Narciso

O autor deste humilde blog não é, nem em público nem em privado, especialmente dado a momentos de auto-contemplação. Tem-nos muito raramente, quando uma qualquer combinação astral, aliada a um momento específico da tabela de marés, faz crescer no Burundi pimentos azuis. Ontem, além de ter sido 25 de Abril, de Cavaco Silva ter tido a coerência de não usar um cravo vermelho e de ter feito um discurso conceptualmente socialista, deu-se um desses milagres de auto-contemplação.

Foram diversos os órgãos de informação que, na segunda-feira, com inteira justiça mas quase insuperável surpresa (minha) investiram tempo e espaço a discorrer sobre o assunto do post anterior, o passamento do Blitz e a génese da Blitz. Por um acaso igual a muitos outros acasos, passei ontem os olhos pelo Diário de Notícias dessa segunda-feira, 24 de Abril, por sorte ainda viçoso, não amarelado. Para, na secção Media, encontrar uma página inteira dedicada à morte e ressurreição anunciada do e da Blitz. A prosa é assinada por Ana Pago. Felizmente. Porque, diz-me a memória, não a conheço.

Além de um texto principal que, com base em declarações do actual director do congelado, retrata com assinalável rigor e síntese o processo de reestruturação em curso, encontra-se ainda uma caixa que esmiuça a edição especial de 20 anos do finado jornal, três sucintas declarações de gente ligada à música sobre o dito e um resumo cronológico de 21 anos (e não 22, como se tem dito e escrito) de publicação semanal de um manancial de música e cultura jovem. E é aí, nos três apêndices da prosa principal, que encontro razões para alimentar um certo orgulho. Desculpai o leitor, mas é a imaculada verdade.

Sem aqui reproduzir o conteúdo da caixa titulada "A edição especial que celebrou 20 anos do jornal", assimilo o prazer de ter sido o director que inscreveu então o seu nome na capa da publicação. Numa das declarações recolhidas, Zé Pedro, músico dos Xutos & Pontapés que aviso ser dos amigos com que 12 anos de trabalho me presentearam, tem ao lado da sua fotografia o seguinte excerto: "O músico sublinha o trabalho desenvolvido sob a direcção de Pedro Gonçalves, que teve a ideia de lançar os primeiros discos com o jornal. 'Uma novidade'". Na tal tabela cronológica, por seu turno, há uma entrada dedicada ao ano de 2003 que assim reza: "Pedro Gonçalves assume a direcção do jornal, dando início a uma etapa carregada de novidades e ideias na história da publicação". Assim de repente, num feriado solarengo, apanho com isto e penso que Cavaco Silva, se actualmente ler jornais, condecorar-me-á num destes dias.

Depois, ao fazer contas de cabeça, perco por completo o Norte ao sentido que tudo isto tem. Se a lógica ainda tiver alguma lógica, tenho alguma dificuldade em perceber por que razão espera desde Agosto de 2005, após breve passagem por uma multinacional de mercearias culturais, o visado no parágrafo anterior (eu, yours truly) pela gentileza da Segurança Social para assegurar sustento através do benemérito Subsídio de Desemprego. Há que amar um país assim, idiossincrático e bizarrro, quando os que nos rodeiam estão há muito normalizados.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

24 abril 2006

1984-2006

O semanário Blitz morreu oficialmente hoje, conforme previamente anunciado. Como ex-director e herdeiro de uma forma única de fazer jornalismo cultural, não posso deixar de considerar este um dia triste, o dia em que a ausência começa.

Respondida que está a secular questão - "Quem um dia será/serão os coveiros do Blitz?" -, permanece apenas a dúvida sobre a capacidade dos ditos em erguer o ambicioso projecto de revista mensal. É que nunca se sabe, como aconteceu com este humilde servente, quando aparece alguém "topo-de-gama" a sugerir que se faça incluir algo como os "Ídolos" na publicação.

Que o Blitz descanse em paz.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

23 abril 2006

Assim riem-se todos...

Jorge Lima Barreto

O jornal 24 Horas está, como se sabe, permanentemente na vanguarda da comunicação escrita para gente nada exigente. Como estão pasquins do género sediados no epicentro da imoralidade jornalística, as terras conhecidas como Reino Unido. Vai daí, nunca o 24 Horas deixaria passar a oportunidade de juntar uma revista colorida às numerosas que já poluem as bancas há alguns anos. Não é de hoje, mas o 24 Horas ao sábado é uma coisa especialíssima, muito pouco de jornal e tudo de revista descartável (e nem necessário é citar rubricas como as assinadas por Belas & Perigosas ou Carlos Dias da Silva).

Esta prosa tem origem no 24 Horas, mas não se lhe dedica. Vem a propósito do editorial, a que chamam "Notas Ligeiras" (que também diz muito sobre a publicação), que esta semana o director Jorge (perdão, Pedro) Tadeu escreveu para fazer um mea culpa com 20 anos de atraso em relação a uma entrevista realizada a Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, mas sobretudo a Jorge Lima Barreto. Diz Tadeu que, ao publicar a entrevista, chamou sistematicamente "steak" (bife) e não "stick" (pau) a um instrumento novo que Vítor Rua andaria a experimentar. Desculpável, quando nos lembramos de casos como uns tais Very Light fazerem a primeira parte de um concerto dos GNR ou as "bass lines" traduzidas por "linhas de base". Ainda que não se perceba o acto de contricção de Jorge (perdão, Pedro) Tadeu (o tema de capa são as maiores broncas na televisão, talvez seja essa a ligação...), não é grave.

O que é curioso é que, a dada altura, escreve Jorge (perdão, Pedro) Tadeu: "Com Jorge Lima Barreto não se pode ter uma conversa simples e desapaixonada. O fulano é uma inteligência superior e cultiva o estatuto de provocador profissional. Virou-se para o ignorante jornalista e fuzilou-o com uma conversa enciclopédica sobre música minimal repetitiva, música mimética, música concreta, música funcional, música totalmente improvisada, música electro-acústica, eu sei lá!...". Descontado o facto de crer este vosso servente não ser possível manter com Jorge Lima Barreto uma conversa de todo, Jorge (perdão, Pedro) Tadeu não podia descrever melhor a personalidade que lhe havia tocado em sorte. A camaradagem profissional faz-me, no entanto, tirar o director do 24 Horas deste estado miserável de auto-compaixão e explicar-lhe que também Jorge Lima Barreto dá as suas "broncas". Algumas bem boas, daquelas que se mastigam com insuperável intensidade.

Há uns anos consideráveis, eu próprio fui alvo da fúria enciclopédica de Jorge Lima Barreto e também por via de um trabalho jornalístico que me mandaram fazer para o Blitz. Actuaram em Lisboa os Grandmothers of Invention, a já vetusta banda que outrora acompanhara Frank Zappa. Um espectáculo dos utentes de um lar de idosos não teria sido muito diferente, não fosse a presença do falecido Gonçalves (performer espontâneo dos Irmãos Catita), e era suporto sair dali com uma reportagem. Foi o que fiz, escrevendo no final da dita que não tinha qualquer interesse em ouvir os discos de Frank Zappa. Foi o suficiente. Jorge Lima Barreto, presente no concerto como espectador, não quis acreditar em semelhante despautério e escreveu ao então director do Blitz, Rui Monteiro, dando conta da minha imbecilidade, por outras palavras. Na missiva, entre elocubrações sem muito interesse para o cidadão comum, aprendi mesmo uma palavra: plumitivo. Cheguei a pensar ser insulto grave, até consultar o dicionário. Fazei o mesmo.

Obviamente, Jorge Lima Barreto passou a ocupar um lugar especial no meu coração, homem de figadal reacção ao facto de um jovem plumitivo não querer, e assumi-lo com arrogância, chegar sequer perto da música de Frank Zappa. Afinal, a criação e o consumo musicais são mais viscerais do que cerebrais, pelo menos vistos daqui. Isso é bom, é humano, é até contrário à mecanização das "leis do mercado". Este limbo intelectual e enciclopédico de Jorge Lima Barreto desvaneceu-se diante de mim alguns anos depois, para alegria do agora confessado Jorge (perdão, Pedro) Tadeu.

Avisado da capacidade de Barreto para escrever livros como Musa Lusa, quis a dada altura conhecer uma obra de nome B-Boy, em que, como o próprio nome indica, se traçava vagamente uma história da cultura hip hop. Numa estada no Porto, visitei a loja Valentim de Carvalho do Shopping Cidade do Porto, onde trabalhava um amigo, músico português dedicado à electrónica. Entre diversas outras coisas, perguntei-lhe pelo citado B-Boy, cujo paradeiro me foi apontado prontamente apontado. Perguntei-lhe, em tom irónico por não ter o hábito de tomar semelhante iniciativa, se um livro com uma capa tão hedionda não daria direito a desconto na caixa. A resposta foi um post-it colado na capa com uma mensagem para a menina à saída: "O portador deste livro de anedotas é jornalista. Fazer o desconto possível".

Quis saber a origem da expressão "livro de anedotas". Disse-me então o músico que ele próprio havia sido visado na obra com uma análise ao seu primeiro álbum. E que Jorge Lima Barreto havia, a esse propósito, assegurado que tinham sido usadas máquinas e instrumentos que nunca passaram pelas mãos do autor do disco. Vim, com a leitura da grotesca adulteração da História da Música ali contida, a deparar-me com preciosidades como a afirmação de que o hip hop havia nascido a partir do tecno e a atribuição do estatuto de DJ a Tricky, que todos conhecemos por ser tudo menos isso. Com o seu saber enciclopédico, reconhecido e aplaudido noutros domínios, Jorge Lima Barreto demonstrou cabalmente quais os resultados de escrever sobre aquilo de que pouco ou nada se sabe.

O que me leva também a recordar o dia em que, em entrevista a David Byrne, lhe questionei se tinha conhecimento e participação na biografia que um jornalista português estava então a escrever a seu respeito. Disse-me que não, que cria ter falado com o jornalista numa conferência de impresa, no máximo, mas que não sabia nada sobre o assunto. Publicada a entrevista, ficou o referido jornalista muito incomodado com a aparente queda da máscara. Novamente, a questão de falar do que não se sabe ou fingir saber-se mais do que o que se sabe. Por estas e outras, camarada Jorge (perdão, Pedro) Tadeu, durma descansado. As barbaridades, ou "broncas", como lhes chama, vêm de todo o lado. Um dia partilho consigo um "best of" das minhas.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

20 abril 2006

Sindicato dos Jornalistas

Por razões diversas, entre elas uma quase epidérmica aversão ao corporativismo, nunca pertenci a qualquer sindicato. Na realidade, só a um poderia com lógica pertencer, mas nem esse, até hoje, libertou em mim a urgência justiceira que com alguma frequência se instala.

Isso não obsta, no entanto, a que reconheça no Sindicato dos Jornalistas ao longo dos anos o mérito de efectivamente trabalhar em prol dos que a ele se associam, mesmo quando as acções desempenhadas possam não parecer mais do que simbólicas. O Sindicato dos Jornalistas, assim parece, está em boa medida muito mais preocupado em preservar valores e códigos veteranos porém prementes do que boa parte da classe que hoje junta letras com a mesma convicção de quem pesa laranjas no Continente.

Por isso mesmo, apetece-me desta vez salientar a rejeição do Sindicato dos Jornalistas em fazer parte dessa sinistra entidade recentemente pensada e que responde(rá) pelo nome de Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). E aplaudir, e colocar-me ao lado de quem não se sente confortável com a presença, sobre os ombros, do ignorante fantasma do controlo. Para isso já bastam, na maior parte dos casos, os fantasmas dos detentores do capital dos meios de comunicação.

Aqui fica o comunicado do sindicado, tornado público há dois dias:

"SJ rejeita lugar no Conselho Consultivo da ERC

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) não ocupará o lugar que lhe cabe no Conselho Consultivo da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) por discordar do modelo legislado para aquele órgão, mas está disponível para prosseguir a cooperação que manteve com a extinta Alta Autoridade para o sector - informa o SJ em nota à imprensa divulgada hoje, 18 de Abril.

Segundo o SJ, no encontro realizado a 12 de Abril a convite do Conselho Regulador da ERC, a Direcção do Sindicato reafirmou as suas críticas quanto à composição e forma de designação dos membros do órgão regulador, e explicou que não aceita participar no Conselho Consultivo por este ser um órgão "efectivamente destituído de funções próprias", cuja composição se encontra "inaceitavelmente desproporcionada", com oito representantes do poder económico, cinco do Estado e apenas um dos jornalistas.

Apesar da posição crítica e da sua intenção de prosseguir a luta por alterações à lei da Entidade Reguladora, o SJ está aberto à discussão conjunta dos problemas do sector, tendo apresentado um conjunto de temas que deverão ser objecto de concretização mais aprofundada nas relações que pretende manter com a ERC.

É o seguinte o texto, na íntegra, do comunicado do SJ:

SJ recebido pelo Conselho Regulador da ERC

A convite do Conselho Regulador, a Direcção do Sindicato dos Jornalistas (SJ) foi recebida, no passado dia 12, por aquele órgão da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

No encontro, o SJ explicou as suas posições sobre a criação da ERC, especialmente quanto à sua composição e à forma de designação dos seus membros.

A Direcção transmitiu a disponibilidade do Sindicato dos Jornalistas para prosseguir, com a ERC, a cooperação que manteve com a extinta Alta Autoridade para a Comunicação Social, na apresentação de casos susceptíveis da sua intervenção e na discussão de problemas do sector.

O SJ está disponível para reuniões bilaterais e para participar em iniciativas da ERC, incluindo reuniões com os restantes parceiros do sector, apesar da sua discordância sobre o modelo de "conselho consultivo" legislado motivo pelo qual o SJ não ocupará o lugar que lhe cabe naquele órgão.

O SJ considera que o Conselho Consultivo criado no âmbito da ERC é um órgão efectivamente destituído de funções próprias e que a sua composição se encontra inaceitavelmente desproporcionada.

De facto, enquanto a lei da ERC atribui à representação dos jornalistas apenas um lugar, consagra a participação directa e indirecta das empresas através de quatro lugares e atribui número idêntico à publicidade, conferindo um peso de oito lugares ao poder económico – três lugares mais do que ao Estado.

O SJ comunicou ao Conselho Regulador que vai continuar a trabalhar no objectivo de alterações à lei da ERC, especialmente quanto à composição e competências do Conselho Consultivo.

No encontro, o SJ apresentou os seus pontos de vista sobre os principais problemas do sector, designadamente:

• Concentração da propriedade dos meios de informação, expressando o receio de que esta venha a agravar-se;

• Desregulação em muitas empresas, com a violação de elementares regras legais e a persistência de fenómenos de precariedade que constrangem a liberdade de expressão;

• Efeitos das novas práticas do marketing e da publicidade na autonomia editorial dos jornalistas;

• Censura económica de que se sentem alvo vários órgãos de informação regional por parte de autarquias locais;

• Direitos de autor dos jornalistas, que fazem parte do anteprojecto de revisão do Estatuto do Jornalista.

Os temas acima enunciados deverão ser objecto de concretização mais aprofundada nas relações que o SJ pretende manter com a ERC.

Lisboa, 18 de Abril de 2006

A Direcção"

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

18 abril 2006

Maio Trinchado Maio

A Naifa_Porto e LX

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

"And her hearing aid started to melt..." Vol. XIV

Sonotone do dia:

DFA Remixes Chapter 1

Vários: The DFA Remixes Chapter One (Março 2006)

Veredicto:

Algo que os anos mais recentes me conseguiram fazer temer é toda a criação musical a que se associa o termo electro, surja ele como prefixo, sufixo ou orgulhosamente só, o que é invariavelmente mais assustador. O caso é assim um pouco como o que. lá pela década passada, no domínio da electrónica, surgiu como adjectivo para muitos melómanos: intelligent. São, efectivamente, coisas que assustam, que fazem temer pela saúde colectiva. Curioso se torna, portanto, que a propósito de The DFA Remixes Chapter One brote na gente uma vontade quase irresistível de juntar os dois termos. Resistirei. James Murphy e Tim Goldsworthy, os homens que respondem pela editora de onde este disco vem, misturam com real porém reservada inteligência cânones que vão do disco ao funk, do house ao... erm... electro. E isto com uma inegável sabedoria que advém do simples facto de a dupla conhecer, respeitar e interpretar com pertinência os passos que os géneros citados foram dando ao longo dos anos. Em The DFA Remixes Chapter One compilam-se nove das diversas remisturas assinadas pela DFA nos cinco anos de actividade e que apanham os nada desprezíveis nomes de Le Tigre, Blues Explosion, Chemical Brothers, Soulwax, Radio 4 (provavelmente a única remistura conhecida de "Dance to the Underground" que, em nove minutos, consegue não recorrer ao proverbial refrão), Fisherspooner, Gorillaz, Metro Area e Hot Chip. O que, por isso e pelo ouvido apurado de quem mexeu nos originais, faz com que uma compilação que à partida corria o risco de repetir-se até à náusea funciona afinal em modo festivo sem que os ouvidos se queixem por agressão, bem pelo contrario. 83,1% de satisfação garantida.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

11 abril 2006

Quiz

Manic Street Preachers

Protagonista de uma milionária transferência de última hora para uma equipa concorrente graças à já lendária irregularidade/displicência horária dos elementos que compõem o mítico combo TV Rural, voltou este excelso plumitivo a saborear a glória do triunfo no Quiz semanal organizado no Espaço Portela. Reconhecida pela maioria dos intervenientes como particularmente difícil, a edição desta segunda-feira restitiuiu a este servidor um lugar que, perdoai o leitor, lhe assenta particularmente bem e lhe sabe substancialmente melhor: o primeiro. Sob o título Reservado, o quarteto que integrei ficou duas respostas acima dos concorrentes mais directos e transportou consigo novo triunfal êxito sob cumprimentos generalizados dos demais participantes, É possível que o cenário surja neste momento vagamente empolado, mas a emoção da vitória é por vezes a mãe da inconsciência. No caso concreto, mais alargado teria sido o triunfo se soubesse o colectivo Reservado responder a questões que solicitavam o nome do invólucro de verguinha ou palhinha que protege os vasos de vidro, a capital das Ilhas Salomão ou o nome do arquipélago de ilhas coralinas que, no Índico, se situam a Norte de Moçambique. Mesmo do ponto de vista estritamente musical, o pleno ficou por atingir. Everything But the Girl e Manic Street Preachers foram, como soi dizer-se, limpar o cu a meninos, mas recordar o questionável título do segundo álbum a solo de Tim (Xutos & Pontapés) e identificar uma canção interpretada por uma/uns tal/tais TTO (queira o leitor conferir, que a paciência impede-me de momento de fazê-lo) mostaram-se tarefas impossíveis de cumprir. No fim, feitas as contas e superado o vago suspense, toma lá o primeiro lugar com 32 respostas certas. O dinheiro deu jeito para cacete.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

07 abril 2006

Pedro Gonçalves aka Boldfinger

Slang_Beat Diggin'

Não necessitando no momento presente de fazer novo alarido em torno da novel revista SLANG, talvez deva no entanto esclarecer que o colaborador que por lá consta como Boldfinger é não menos do que yours truly. Adiante.

Vem isto a propósito de um mail que hoje o Rui Miguel Abreu, da Loop Recordings, me enviou. Conforme sabe quem tem a revista, e quem a não tem deveria tê-la, foi o sinistro Boldfinger acompanhar três beat diggers a um inusitado espaço na periferia lisboeta à cata de vinil em segunda mão. Para disso fazer uma reportagem sobre algo que em Portugal permanece como um mistério para muita gente.

Com a sua amável permissão, aqui transcrevo um pedaço do mail:

"Olha, toma lá um artigo do guardian: http://arts.guardian.co.uk/filmandmusic/story/(etc. etc. etc.)

Tu fizeste primeiro!"

Descontado o prazer oriundo da obra parida antes da que pode ser lida numa das raras publicações que merece ser consumida nos dias correntes, vale no entanto a pena deixar aqui, em condições, a ligação para o artigo em causa, em que Dorian Lynskey se dedica à exploração jornalística dessa actividade. Pena é um título como "Rare Grooves" numa língua tão rica como a inglesa, mas mais uma prosa num generalista sobre este distinto labor sabe sempre bem.

Ora aí está: Rare Grooves.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

O que diria Bela Lugosi? "Beware..."

José António Saraiva

Noticia hoje a Meios & Publicidade:

"Semanário de Saraiva nas bancas a 16 de Setembro

Adriano Nobre
07 de Abril de 2006

O primeiro número do novo semanário de José António Saraiva vai chegar às bancas no dia 16 de Setembro. A data foi avançada ao M&P pelo antigo director do Expresso, confirmando-se assim que o novo título irá concorrer directamente nas bancas, aos sábados, com o semanário da Impresa Jornais. A divulgação dos restantes pormenores sobre o projecto (título, estrutura editorial e componente gráfica) foi remetida por Saraiva para a apresentação oficial do jornal, que será feita às agências de meios na semana seguinte à Páscoa.

De acordo com o responsável, definida está também a estrutura accionista que suportará o lançamento do projecto. “As negociações estão fechadas”, garantiu Saraiva ao M&P, escudando-se num “acordo de confidencialidade” para recusar confirmar o nome da entidade bancária e do empresário dos media que se associaram ao projecto. A constituição formal da sociedade está agendada “para finais de Abril”, altura após a qual serão divulgados publicamente os nomes em causa. Fica, desta forma, completo o processo formal de constituição de toda a estrutura inerente ao lançamento deste semanário, depois de no início de Março, conforme noticiou o M&P, ter sido registada a editora Comunicação Essencial Lda. Na escritura de constituição desta editora constam os nomes dos jornalistas que formam o núcleo editorial do projecto: Mário Ramires, José António Saraiva, Vítor Rainho e José António Lima. A estes juntam-se nomes ligados à área financeira como Manuel Reis Boto e António Frutuoso de Melo.

Relativamente à constituição da equipa redactorial para este semanário, Saraiva revelou que “para além do núcleo editorial, ainda ninguém está contratado”. “Só depois da constituição formal da sociedade entraremos no processo de contratações faseadas, não só de jornalistas, mas de todas as áreas necessárias para o jornal”, explicou. Entre estes, deverão ser contratadas “não mais de 15 pessoas” ao Expresso.

Ainda segundo Saraiva, “cerca de 90% da redacção deverá ser formada por jovens jornalistas, na sua maioria recém-licenciados”, aos quais se juntarão “o núcleo fundador e mais alguns jornalistas com maior experiência”. Depois de definidas as contratações dos jornalistas mais jovens, o mês de Junho será preenchido por “cursos de formação que transmitirão à redacção o enquadramento editorial” do projecto."

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

05 abril 2006

Barcelona 2 - 0 Benfica

Barcelona-Benfica

Justíssimo, mais do que óbvio e, ainda assim, uma triste desilusão.

Dito isto:

Obrigado Beto, pela técnica superior no primeiro golo.

Obrigado Petit e Anderson, pelo passe e pela inércia no segundo golo.

Obrigado Simão, pelo altíssimo nível demonstrado na única grande oportunidade.

Obrigado, verdadeiro, aos milhares dos nossos que lá estiveram para mostrar que há muito que somos infinitamente maiores que a equipa pela qual sofremos.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

31 março 2006

A madrasta verdade no dia das mentiras

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Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

30 março 2006

Get your kicks on Route 66!

The Legendary Tiger Man

The Legendary Tiger Man
Lux, Lisboa
29 de Março

Hoje, naquele período que mistura a manhã com a tarde, por razões insondáveis a SIC exibia, como dizem que faz diariamente, os comentários de três pessoas à vida privada de uma ou outra criatura cujas existências, conhecidas pelo seu absoluto vazio fora do universo do mundano, parecem ser interessantes para uma não desprezível quantidade de pessoas também sedentas de substracto que as preencha. Embaraçosamente provinciano e constrangedor, o espaço televisivo, em que se discutia com preocupante seriedade se uma tal criatura Jardim estaria ou não de amores com um tal espanhol com actividade médica, fez o signatário pensar num pedaço da noite anterior.

Foi o próprio quem me confirmou, algum tempo depois de apresentar o seu novo álbum (já lá iremos), que em Setembro se casará. Felizmente, o assunto nunca será objecto de discussão na citada confrafria de inúteis, uma vez que, além de não constituir fenómeno de relevância social absolutamente vital (como o tal caso Jardim), é acompanhado pela obsessão da criação artística. É isso, precisamente, que fascina. Quando, entre Setembro e Outubro de 2006, Paulo e Isabel andarem pela Route 66 a fazer os Estados Unidos de costa a costa em lua-de-mel, terão consigo uma câmera Super 8 que de acordo com os planos servirá para registar não apenas a convivência conjugal, mas a convivência com referências e civilizações que marcam aquele que é um dos maiores músicos portugueses realmente vivos. E, pelo que se conhece ao elemento masculino da relação, a coisa não servirá apenas para mostrar à eventual descendência em tardes de domingo, esperando-se mais um acto superior de apropriação e partilha de ideários e imaginários a que o português comum tem culturalmente dificuldade em aceder. Perdoai-me os leitores da Grazia, mas são estas genuínas demonstrações de procura criativa que me estimulam.

Paulo Furtado, que fique claro, é um belíssimo amigo, daqueles que pessoalmente se preocupa em indagar a morada para onde enviar um convite para o serão em que pela primeira vez mostra o seu novo disco, Masquerade, ao vivo. Conscientemente afastado do estanque "meio musical" que em Lisboa actualmente gravita, não conseguiria o improvisado repórter recusar um convite efectuado com respeito, amizade e, pode dizer-se, uma cumplicidade construída em anos de interacção. E ali estava eu, cinco minutos depois de começar o espectáculo, no Lux, onde há meses não colocava os membros inferiores por manifesta ponderação de prioridades e crescente repulsa pela complexidade intangível do binómio ver/ser visto. No palco não estava, na ocasião, Paulo Furtado, mas essa trepidante entidade que responde pelo nome de Legendary Tiger Man. Do lado de cá, não está apenas o amigo, mas o adepto, o associado, o "torcedor". Gozando plenamente da vantagem de não ter trabalho a cumprir no serão.

The Legendary Tiger Man, então. Não tem muito que saber: é um dos poucos projectos portugueses com alma própria, tão própria como construída a partir de umas quantas almas grandiosas que marcam a História norte-americana sobretudo no tomo dedicado aos blues. Por essa razão, principalmente por essa razão, Paulo Furtado já me ouviu mais do que uma vez afirmar sem hesitação que Portugal é, por razões culturais e outras como ginásios e programas televisivos matutinos, absolutamente incapaz de absorver e viabilizar (precisamente: pagar) qualquer coisa como a música do Lendário Homem Tigre. Nessa mesma noite, diziam-me que deviam ter estado recentemente em Coimbra todos os portugueses que apreciam os blues e que, acrescento eu, reconhecem vida para lá de BB King. Imagine-se, portanto, se não é fora deste quintal que as possibilidades de compreender uma tradição sulista norte-americana se materializam. "One man show" é coisa de circo, parece-me ouvir sempre que penso nisto.

É daí, dessa tradição e da repetida audição dos mais destemidos, enigmáticos ou praticamente invisíveis praticantes dessa combinação dos blues com o rock'n'roll que vem este engenho criativo de Paulo Furtado na versão The Legendary Tiger Man (descontando, propositadamente, nesta ocasião experiências como os Tédio Boys e os Wray Gunn). Quando chama ao palco o magnífico Dead Combo (para a interpretação de "Let Me Give It To You") e João Doce e Nelassassin (para, respectivamente, acrescentarem percussão/coro e turntablism a "Say Hey Hey"), Paulo Furtado não se transfigura numa balofa criatura de desmesurada ambição. O que ali importa é, na realidade, perpassar subtilmente a sua música com universos que a ele se adaptam e não o assustam nem se agigantam esfaimados. Ainda que, com toda a naturalidade, o maior manipulador de gira-discos em Portugal (Nelassassin) chame a si especial atenção pelo (aparentemente) inusitado diálogo do vinil com a guitarra e a voz. Nada de mais, apenas a combinação do trabalho de dois eleitos.

The Legendary Tiger Man passa por todo o novo Masquerade, o principal pretexto que ali o levou, mas regressou igualmente a Naked Blues, que o mostrou ao mundo que não dorme. Mas para Paulo Furtado um triunfo anunciado não é suficiente, servindo ainda o Lux para dar vazão ao trabalho em vídeo que ele próprio e gente como André Cepeda ou Edgar Pêra oferecem a canções que vão do eternamente atraente imaginário "middle of the road" às sinuosas histórias de amor e desamor sob néon onde se lê "Motel". Os cumprimentos ao músico, depois de cumprida a tarefa, referem-se precisamente a um composto de música e imagem que transportam diletantemente o consumidor para essas terras de ninguém que só os velhos discos e as essenciais leituras tornam acessíveis.

Mesmo que o facto já não cause estranheza, inevitável se torna dizer que, sempre que Paulo Furtado (na encarnação The Legendary Tiger Man) dá aparentes passos atrás no tempo está a quebrar recordes de salto em comprimento no espaço baptizado Portugal. Para Este (que o diga a revista francesa Rock & Folk) como para Oeste, tornando-se o Atlântico num fio de água que tão facilmente se transpõe com uma voz de poeira no ar, uma guitarra que tanto fere como acaricia, um bombo e um prato-de-choque que parecem tocar sozinhos. Bem sei que este pode ser tempo e espaço perdidos na elocubração mental em torno de qualquer coisa que não existe na vizinhança de nenhum de nós. Mas, fuck it!, alguém tem que dizer sem compromissos de espécie alguma o quão distante deve agora chegar o novel Masquerade. Geograficamente falando, sobretudo.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

28 março 2006

Benfica 0 - 0 Barcelona

Benfica-Barcelona

Obrigado Benfica, por dar o que tinha e o que não tinha.

Obrigado Catedral, mais uma vez.

Obrigado "mr. referee", por ter cirurgicamente cumprido as proverbiais expectativas da UEFA face às equipas que dão jeito ir longe na Liga dos Campeões.

(De caminho, obrigado Fabregas e Henry, por porem os gunners onde têm que estar).

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

26 março 2006

SLANG

SLANG

Eu, no lugar do estimado leitor, estaria atento às bancas vendedoras de publicações periódicas ao longo dos próximos dias. A justificação é a chegada ao mercado da arrojada revista SLANG, coisa nunca vista no quintal chamado Portugal. Música, desporto, cultura urbana e masculina em geral são as ténues fronteiras que balizam o projecto, com forma e conteúdo nos antípodas do amadorismo cauteloso que marca muita da produção dita para "gente jovem".

De uma inédita reportagem sobre Beat Diggin' em Portugal a uma foto-reportagem do dubstep no Reino Unido, das histórias e imagens dos Story Tailors à irresistível sobranceria de um street skater preso na Tugalândia, a SLANG é um mimo para olhos e cerebelo. Com a aventureira sapiência visual de Paulo Arraiano e Luís "Roca" (este do projecto Conspira), não é coisa de estranhar. É de entranhar.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

22 março 2006

Ramos Radio Voz Voxx

Num daqueles dias em que a actualidade passa como uma brisa que nem toca o corpo, é a noite que amiúde traz o contacto com a realidade que se constrói fora dos nossos casulos. Foi exactamente isso que se passou ontem, quando um dia vagamente animado foi lacerado pela notícia da morte de José Ramos, que muitos conheciam como a voz off da SIC.

No caso, importa-me pouco o que fazia José Ramos. O que sei é que tinha uma voz que invejava, uma voz que provoca natural inveja em quem, como o signatário destas linhas, sonha acordado com a rádio mas não faz grande esforço por encaixar-se no caciquismo em que hoje funciona o excrementício meio de comunicação.

Já que é de rádio que falo, há algum tempo que ando para partilhar uma opinião sobre a estação que mais oiço, a TSF. Reconhecida pelo criterioso conteúdo noticioso/jornalístico, a TSF foi em tempos por mim também reconhecida como um exemplo em matéria musical. Sem, necessariamente, dar de frente com os meus gostos, percebia-se ainda assim o mesmo princípio criterioso de difusão musical. Nesse capítulo, a TSF é hoje uma patética extensão do vergonhoso espaço nocturno por muitos baptizado como A Idade da Incontinência. É uma pastosa nulidade sonora que funciona 24 horas por dia e que faz pensar no que terá acontecido ao saber outrora aproveitado de gente como Mário Dias e Aníbal Cabrita. Actualmente, quando a TSF passa música o escriba desliga o transistor.

De regresso à prematura morte de José Ramos, traído pela mesma garganta que me encantava, recusarei a hipocrisia de dizer que perdi um amigo, como é frequente afirmar nestas ocasiões. Nem sequer conhecia José Ramos. Queria, isso sim, ter aquela voz. O que aqui me traz é o facto de conhecer e nutrir especial carinho por Pedro Ramos, filho de José Ramos e ele próprio profissional de rádio. Hoje na Radar, foi meu camarada na finada Voxx. Foi na Voxx que lhe reconheci, além do gosto e da cultura musical, um humor estranhamente espontâneo e cirúrgico, tão natural como científico. Foi na Voxx que comecei a gostar muito do Pedro.

No fundo, foi o Pedro que me fez vir aqui escrever estas linhas. Não tanto por admirá-lo, mas por gostar muito dele. Do tal humor mas também da sua evidente sensibilidade. No fundo, apenas servem estas linhas para tentar fortalecer uma bomba energética que desejo que se abata sobre o Pedro Ramos nesta altura. O Pedro merece, profissionalmente, ver-se um dia reconhecido como o pai. Mas nesta ocasião o que mais merece é saber que existe quem, à brasileira, esteja com ele e não abra. É o meu caso.

E isto não é do meu ouvido, mesmo sendo 1 pouco mouco.

21 março 2006

Quiz

James Blunt

Não posso iniciar esta prosa sem pedir sinceras desculpas pela imagem que suporta este post. Aceite o perdão, serve o presente para dar conta de uma noite perfeitamente aziaga para o majestoso combo que dá pelo nome de TV Rural e que semanalmente se reúne nas noites de segunda-feira no Quiz do Espaço Portela. Reportando-me directamente aos factos, direi que foi um patético sexto lugar, mais patético ainda quando se sabe que mais três respostas certas chegariam para a vitória e que, no último instante de correcção, três das nossas respostas foram alteradas. Apenas do certo para o errado. Nesta coisa dos blogs, em que serei sempre novato, não sei que linguajar utilize, mas um sonante "foda-se!" parece-me lindamente nesta altura. Assim como quem não quer a coisa, e a título de exemplo, por que carga de água não soube o lendário TV Rural responder acertadamente a perguntas como a que pedia o nome do Presidente francês falecido em 1974, o nome do núcleo antigo das cidades árabes do Norte de África ou a porra da autoria arquitectónica do Empire State Building? Sabe-se lá. No campo puramente musical, graças aos inenarráveis Sixpence None the Richer não foi feito o pleno. A categoria incluia ainda questões sobre os Blind Zero, os (inenarráveis também) Fingertips e o genérico da lendária série televisiva Verão Azul. No momento já estou mais apaziguado, ao som dos duetos de Johnny Cash com June Carter (está o gentil leitor a ver Walk the Line, o filme? Não tem nada a ver). Mas com azia.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

18 março 2006

Lura tal qual Gladys Knight

Lura

A comparação é de Tom Smucker, que no Village Voice compreensivelmente se derrete com a música da cabo-verdiana adoptada por Lisboa. Lura, de seu nome.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

17 março 2006

O estar quase...

Morrissey

A besta que vendeu a ideia de que um blog é uma espécie de diário informatizado é, precisamente, uma besta. Um diário, compêndio de escritos onanistas com interesse habitualmente reduzido para a população mundial, é coisa de gaja. Não é bom nem mau, é apenas coisa de gaja e não carece de actualização, sendo a dita perfeitamente dispensável quando trata de flirts e beijinhos.

Isto a propósito da dificuldade recorrente de actualização dos blogs em geral e deste em particular. Um blog quer-se vivo, daí a instalação da angústia quando a disponibilidade física e/ou mental não permite que se juntem palavras com nexo para partilhar com quem tem a condescendência de lê-las. Ora este espaço, que numa primeira análise se dedica à música e às miudezas circundantes, provoca no seu criador amiúde essa angústia.

No momento presente, por exemplo, bem gostava que factores interiores e outros cósmicos permitissem a dissecação escrita de discos assinados por gente como Andrew Bird, Arctic Monkeys, Bell Orchestre, Belle and Sebastian, Ben Harper, Beth Orton, Broadcast, Cat Power, Destroyer, DJ Shadow, Giant Panda, Heavy Trash, His Name is Alive (sim, é verdade...), Hot Chip, J Dilla, Jahcoozi, Jens Lekman, Kero One, Kiprich, Liars, Lindstrom & Prins Thomas, Maximo Park, Mogwai, Mudhoney (sim, é verdade...), Neko Case, Nightmares On Wax, Prefuse 73, Prince, Ray Davies (sim, é verdade...), Richard Ashcroft, Saint Etienne, Skalpel, Stereolab, Sway, Tiga ou Yeah Yeah Yeahs. É uma maçada, esta incapacidade de traduzir tudo o que se ouve em palavras. Pelo menos num tempo unanimemente considerado útil, quando as prosas parecem fazer temporalmente sentido.

Nem tudo são más notícias, no entanto. Concentra-se o signatário, nesta altura, na absorção compulsiva de Ringleader of the Tormentors, o novo álbum de Morrissey com edição agendada para 4 de Abril. Este, como se imagina a partir da leitura de posts anteriores, é um disco que passa à frente de todos os outros e que merecerá, muito em breve, tradução faixa-a-faixa neste seu humilde espaço. Para já, foi impossível contrariar a vontade de partilhar que o disco não é, nem de perto nem de longe, uma consequência (ou sequer uma sequência) de You Are the Quarry, que a produção de Tony Visconti é uma preciosidade que transporta o génio para universos díspares e que, afinal, felizmente Ennio Morricone não aplicou aqui os trâmites que partilhou com Dulce Pontes.

Às tantas esta é uma recriação de Morrissey, é qualquer coisa que cheira à sua estreia a solo, Viva Hate, disco vetusto mas de sempiterna grandiloquência. Não na forma nem no conteúdo, mas na intenção, na carga frequentemente épica, na desfaçatez com que o autor lida com a ditadura da moda. Ou muito me engano ou estou satisfeito.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

14 março 2006

Quiz

Youssou N'Dour

Para mais fácil compreensão deste post, sugere-se a leitura do post anterior dedicado ao Quiz semanal do Espaço Portela, em que falava da agrura da travessia do deserto. Ao que parece, foi a dita interrompida na vida do mítico combo intelectual que responde pelo nome de TV Rural e do qual faço orgulhosamente parte. Numa palavra, ganhámos. Ganhámos a sessão desta segunda-feira. Por uma resposta de diferença, sendo que a dita pode ser atribuída ao facto de nos termos aproximado milimetricamente do valor da temperatura mais baixa alguma vez atingida num ponto do globo terrestre. 89,2 graus centígrados negativos, diz o livro dos records, 91 graus negativos respondemos nós. O nosso precioso rookie sugeria um valor mais temperado, no que foi contrariado, mas a certeza com que aventou outras respostas fez toda a diferença na sessão em causa. Teria a distância face ao segundo classificado sido maior caso, na ocasião, entre diversas outras coisas tivesse ocorrido ao distintíssimo colectivo que o Tratado de Roma instituiu o Banco Europeu de Investimento, que o significado de HTML não é nada do que supúnhamos e qual o nome do realizador da telenovela "Gabriela". Em matéria puramente musical, o serão não foi de plenitude acertiva, facto que, ainda assim, não envergonha dadas as personalidades envolvidas. Huey Lewis & The News e Youssou N'Dour com Neneh Cherry foram, como soi dizer-se, como limpar o rabo a meninos. Em contapartida, saíram completamente erradas a resposta relativa aos inenarráveis O-Zone e a que questionava a origem geográfica de Freddie Mercury. No que a mim me diz respeito, numa altura em que uma certa revolta quase me impele a abrir guerra com metade da população mundial ao som de Jon Spencer e Matt Verta-Ray (procurar o álbum Heavy Trash, do projecto com o mesmo nome), esta vitória não deixa de dar alento para mandar com propriedade renovada uma ou outra pessoa para a meretriz que a deitou ao mundo.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

10 março 2006

Que falta fazia...

Festival da Canção

Uma das minhas primeiras memórias musicais pré-Smiths é a de estar em casa dos meus pais com todo o agregado a fazer a votação nos festivais da canção, tanto portugueses como os da Eurovisão. Coisa séria e compenetrada, o que é que julgais? Coisa boa para desenvolver o espírito crítico, perceber o que é uma canção ou o que não deve ser uma canção. Naturalmente, não desenvolvi nem percebi nada disso nessa época. Era um serão animado que o tempo tratou de tornar repelente.

Começou há pouco mais uma edição do festival português da canção, com transmissão em directo na RTP. Instalado com uma tigela de cereais e a ideia de ver um qualquer filme em DVD, a verdade é que parei por ali. Para confirmar, sobretudo, as fortes suspeitas que já nutria: que hoje este evento é absolutamente patético e parolo, a que acresce uma absoluta inutilidade. A música popular, em 2006, não tem nada que ver com isto. Não tem nada que ver com rostos vagamente jovens entoando melodias medíocres que, este ano, suprema novidade, vê as letras repartidas entre o português e o inglês.

Se o simples facto citado anteriormente, o das letra bilingues, era já mais do que ponto assente há décadas nos países realmente apostados em vencer na Eurovisão, aquilo que por ali está a soar no televisor aproxima-se por muito mais razões de uma qualquer cerimónia que esperaria encontrar numa madrugada da RTP Memória. É uma coisa serôdia, bimba, que rejubila pela enésima vez em torno de canções de José Cid e Carlos Paião, mais uns petiscos sem resquício de graça em jeito de musical à portuguesa. Serviço público, dizem.

Há muito que, sem acompanhar estes tormentos televisivos, desejo que Portugal nunca participe no Festival Eurovisão da Canção. Desejo sempre um último lugar, ou lá muito perto, para que não restem dúvidas sobre o não-apuramento para a edição seguinte. Participar naquilo é o mesmo que assumir um imenso orgulho em ser uma cagada, um país rafeiro que dá a pata e abana a cauda para poder ser visto seja lá onde for. ("Portugal é um fado que a História cantou...", acabo de ouvir num refrão que, mais à frente, reza: "Portugal is the music that History sang...") Mas este ano, parece, estaremos em Atenas representados por quem hoje ganhar esta coisa. Paciência. Temos sempre o Mourinho.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

08 março 2006

Liverpool 0 - 2 Benfica

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Obrigado Simão.

Obrigado Miccoli.

Obrigado ao grande João Gonçalves e a todos os que lá estiveram a representar-nos em frente ao local onde em tempos ficava a mais mítica bancada da Europa - The Kop.

07 março 2006

Quiz

Underwolrd

A travessia do deserto é uma coisa muito desagradável. É o que está a acontecer ao temível colectivo TV Rural, depois de uma série de três vitórias consecutivas no Quiz semanal do Espaço Portela. Esta segunda-feira, desfalcada do rookie sempre importante quando se fala de geo-política, saiu em sorte o quinto lugar. Teria sido interessante, por exemplo, saber que o barómetro foi inventado por Evangelista Torricelli em 1643, que Jamanta é o nome dado pelos pescadores a uma raia grande ou que rotor é o nome da grande hélice de eixo vertical dos helicópteros. Em matéria de música, foi um semi-pleno. Faltou lembrar o título Hustle & Flow, filme por que a canção "It's Hard Out Here for a Pimp" arrecadou este domingo um Oscar. De resto, foi só chegar aos Deep Blue Something, Transvision Vamp e Underworld. Isto não anda fácil.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

06 março 2006

Johnny Marr recorda The Queen is Dead

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No ano em que passam duas dezenas deles sobre a edição desse monumento pop denominado The Queen is Dead, editado pelos recorrentes (para mim, naturalmente) Smiths, Johnny Marr escreve no Belfast Telegraph sobre esse milagre musical. Johnny Marr era guitarrista e compositor dos Smiths, que tinham em Morrissey o génio mais visível. Obrigado ao meu estimado Pedro Dias da Silva pelo envio da prosa, que aqui se transcreve.

The Smiths: Johnny Marr looks back

The Smiths' most celebrated album, The Queen Is Dead, was recorded 20 years ago. Here, their celebrated guitarist reflects
27 February 2006

When Morrissey and I started The Smiths, we thought pop music was the most important thing in the world. It was almost a spiritual thing for us, and because of that, we knew what it meant to be a fan. Our relationship was very emotional, complex and deep. We were with each other constantly for five years.

The Queen Is Dead was our third album and we knew it had to be special. Our trajectory and gone up from day one, but although we were enjoying massive critical and commercial success, it had reached a plateau. I was thinking that if we wanted to be in the same league as The Who or The Beatles or The Rolling Stones, we had to do it now.

I remember preparing songs before we went down to Surrey for a stretch at a recording studio called Jacobs. I was ready to submerge myself completely - it was periscope down. The logistics of recording the record were quite fragmented. We'd already nailed a couple of songs at RAK in London, and we were also doing some concerts, one of which was in the Shetland Islands.

We knew we had our best songs yet, but our way of writing had been the same as ever. "There Is A Light That Never Goes Out", "Frankly, Mr Shankly" and "I Know It's Over" were done in one evening. "Cemetery Gates" I might have got the music for the night before. I'd work on chord changes, and then Morrissey would come round to my place in Cheshire. We'd sit face to face about two feet away. I'd have an acoustic guitar and I'd be holding a recording Walkman between my knees to get a rough arrangement down. We wouldn't breathe out until I'd pressed the stop button.

Other times, I'd drop off a cassette of some music at Morrissey's house. He lived about two miles away, and I'd ride round there on my Yamaha DT 175 and post them through his letterbox. "Some Girls Are Bigger Than Others" was done that way. All the music for that came in one wave while I was watching telly with the sound down.

Jacobs was a residential studio near Farnham. That sounds a bit decadent, but contrary to most albums that were made in the Eighties, ours were done quite cheaply. Firstly, we were on Rough Trade records, and secondly we were quick. Some bands would spend a week on one song, but it was unusual for us not to get two songs down in a day. The Smiths were super efficient, pragmatic and inspired.

Andy [Rourke, bassist] and Mike [Joyce, drummer] had rooms in the main building. Our engineer Stephen Street was in there, too, and Morrissey had the big corner room with the Jacuzzi. I'm joking about the Jacuzzi, but he definitely had the best room, partly because we liked making him feel good. We all loved each other, and Morrissey spent more time alone than the rest of us. There was also a separate building, a kind of producer's cottage. I slept there, mainly because I was making noise during the night working on what was going to be happening the next day.

The album's title track was partly inspired by The MC5 and The Velvet Underground. A Velvets outtakes album called V.U. had just come out, and I loved "I Can't Stand It", mostly because it had this swinging R&B guitar. I'd wanted to do something bombastic like that for a while, and "The Queen Is Dead" was the right place to drop it. There's an eight-minute version of the song out there, but it sounds like we've run the marathon then done two laps of honour. Stephen Street's edit for the album was a good decision.

Using [the actress] Dame Cicely Courtneidge's voice at the top of that track was Morrissey's idea, but it was also very apt for The Smiths collectively. We were all fans of classic British films like The L-Shaped Room, A Taste Of Honey and Hobson's Choice. The aesthetic of those movies was a huge source of inspiration, feeding into our music and artwork. Morrissey's never really been given full credit for that.

We got clearance to use Cicely's voice pretty easily, but we were less lucky with our original idea for the album's front cover. We'd wanted to use a still of Harvey Keitel from Who's That Knocking At My Door, but he knocked us back. We also asked Linda McCartney to come and play piano on "Frankly, Mr Shankly", but she couldn't make it, bless her.

People sometimes ask me who Anne Coates [credited with backing vocals on "Big Mouth Strikes Again"] is, but it's actually a name I made up. The high, synthetic-sounding backing vocal on that song was down to a bit of kit called an AMS Harmoniser. Another talking point is the lyric for "Frankly, Mr Shankly." At the time Morrissey didn't say anything about it being a dig at [Rough Trade boss] Geoff Travis and his bad poetry, but even if he had done, I wouldn't have cared. As I recall, a couple of people at the label said, "Tut! Tut! Somebody's not very pleased with you boys." There was no real indication of what was to come, though.

It was very upsetting when Rough Trade injuncted the album. Given its title, we were expecting flak from the tabloids, but the Rough Trade thing caught us off-guard. We'd made this great record that we'd thrown our hearts into, and we didn't know when the public would get to hear it. It was time for me to up periscope again, but I couldn't really do that until the record came out. I felt that we were stuck in purgatory, and it added to the mounting sense of heaviness that was surrounding us at that point. You can hear it on songs like "Never Had No One Ever."

Andy's problems with heroin were another worry, but we were all very supportive on a personal level. It wasn't doing him any good to carry on being the way he was. There was no problem with his playing on the album; it was more the live shows and the worry that something was going to go cataclysmically wrong for him personally, which in fact it did. When he did get busted and we had to sack him for a while...well it was probably a blessing, really. Much, much worse could have happened.

With the album still injuncted, I decided to go and kidnap the master tapes. It felt very noble, felt like I was doing my band mates and the fans a big favour. My guitar tech, Phil Powell, and myself drove all night in two feet of snow and got to Jacobs just before daylight. With the dawn came the realisation of how stupid our mission was. The people at the studio - it wasn't their fault that they hadn't been paid by the label. They told us they didn't have the authority to release the masters, and we drove off again a bit sheepishly.

Things were finally resolved, and in May 1986, we released "Bigmouth Strikes Again" as a single. We were ecstatic. By this point we didn't care what people thought of it - it was just a huge sense of relief to have something coming out. I'd played a couple of gigs with Billy Bragg on the Red Wedge tour, and in my memory, the release of The Queen Is Dead is tied in with that event. The politics of the tour was one thing, but I felt I'd been treated like shit by the other bands. My wife, Angie, drove The Smiths up to Newcastle and we gatecrashed the next Red Wedge concert. We had no equipment with us, so we hijacked The Style Council's gear and got on stage unannounced. We played the best 20 minutes of our lives. I was so proud. It was partly a sense of vindication and partly just "Great! We're back."

About two months after that, we were booked to do Wogan on BBC1 and Morrissey didn't turn up. Having driven a couple of hundred miles to get there, the rest of us weren't too happy about being left out of the loop, as it were. I didn't care so much when it was some naff show in Italy, us following some guy with a parrot, but this time we felt disrespected and embarrassed. It wasn't like it had been my idea to do Wogan in the first place.

We still had another great album to come, but in the long run not being able to find the right manager was a big factor in the band's demise. Extraneous stuff took over, and I'd defy anyone to try and be all the things that I was expected to be. Just to try and write and perform that music was enough. But in the early days I'd been the one who'd booked the van or tried to blag studio time, and those jobs fell back to me when we were without a manager. It was an insane extension of my original role, and me trying to do all that on the back of a No 2 album was ridiculous.

When I crashed my BMW and managed to walk away pretty much unscathed, it was a turning point. I'd been living the life, and when people see photos of the car wreck, they can't believe I got away with it. It was like a fog had lifted. I stopped drinking a bottle of Tequila before grabbing my car keys. It was time to wise-up and get a haircut.

For a long time, The Queen Is Dead wasn't my favourite record, but I think it stands up very well. We meant every note of it, and it was never a chore. It's audibly a product of its time, but it didn't kow-tow to the fashions or trends of the day. Stephen Street [engineer] deserves a lot of credit. He was the same age as us and we recognised him as a kindred spirit. He had his own quite serious agenda, and there was mutual respect.

The legacy of The Smiths still has a huge impact on my life, and that's fine. When Morrissey and I got together in 1982, it felt like it was going to be significant, but I didn't expect to be talking about The Queen Is Dead two decades later. I last spoke to Morrissey 18 months ago, just about business stuff. Whether we'll ever be on friendly terms again is hard to say, but it's nice to be nice, isn't it?

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

E o resto...

Festa Mondo Bizarre #25

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

05 março 2006

1 Pouco Mouco@Mondo Bizarre #25

Mondo Bizarre #25

Está a chegar às bancas a edição #25 da zine de luxo Mondo Bizarre (pormenores sobre a festa de lançamento no post acima) e foi esta a contribuição d'1 Pouco Mouco para a dita.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

ENTREVISTA

Jel

NOVO JEL SUAVE COM GARANTIA ANTICON

Jeffrey Logan é, muito provavelmente, um nome como outro qualquer. O mesmo já não se passará com Jel, os seus Themselves ou a Anticon, de que é orgulhosamente membro. Em discurso directo, Jel fala disto tudo tendo como mote “Soft Money”, o seu segundo álbum com essa assinatura.

Um dos problemas inerentes ao diálogo ou ao consumo da música de alguém com estreitas ligações à cada vez mais propalada Anticon, editora norte-americana responsável por publicar discos como dos Why?, Themselves, Nosdam, Alias, Sole ou 13+God (colaboração entre os Themselves e os alemães Notwist), é precisamente o peso que a marca pode ter no processo, sobrepondo-se em forma ao conteúdo daquilo que edita. Jel, ou Jeffrey Logan, um dos decanos da Anticon e elemento dos Themselves, ajuda nesta entrevista a colocar cada coisa em seu lugar. Mesmo que os ditos possam soar vagamente baralhados, bem feitas as contas.
“Soft Money” é o segundo álbum de Jel, editado três anos depois de “10 Seconds”. E é um disco que, como se imagina, contém participações de parceiros de editora, não deixando a hegemonia estética de estar concentrada no seu mentor. Jel não se assusta se se lhe chamar um disco de hip hop inteligente, como não se assusta se na sua biografia lhe chamarem o arquitecto do som Anticon. Ao mesmo tempo que garante que está na sua agenda tanto o trabalho com Mike Patton para os Peeping Tom, assegura também novas aventuras do “casal” 13+God, que junta os Themselves aos aventureiros alemães Notwist. “Soft Money” é uma bizarria no universo do hip hop como ele é hoje genericamente conhecido: é elegante, ambicioso, questiona-se despretensiosamente acerca do mundo supérfluo da ostentação e flui elegante entre convidados que dão tons subtis mas coloridos à criação iniciada na vintage caixa rítmica SP-1200, da Emu.


As primeiras palavras “ao vivo” que podem ouvir-se no seu álbum “Soft Money” são “don’t buy this product, you don’t need it” e todo o tema parece deselvolver-se à volta do consumo de coisas supérfluas. Chamaria a isto um “statement”, quando quase todo o hip hop de hoje lida com “bling bling” e ostentação?
É, decididamente, um”statement” dirigido a toda essa parte do filme da indústria discográfica. Pessoas por quem não me interesso. Tenha que ver com dinheiro ou com a venda de automóveis. Isso não tem nada que ver comigo. Há, neste momento, uma quantidade crescente de produtores que licenciam a sua música para publicidade a automóveis, daí ter pensado ser engraçado fazer um tema cujo som fosse como que o de um anti-anúncio de automóveis.

Uma das questões que se destacam quando se fala de si é o seu velho amor pela máquina de ritmos SP-1200, algo que hoje praticamente nenhum produtor utiliza. Continua apaixonado pelo seu som como quando começou a utilizá-la? O que lhe dá ela que não possa ser dado por um qualquer tipo de software?
Sim, continuo a usar muito a SP-1200 no meu trabalho. A maioria das minhas batidas são feitas através dela e depois transferidas para a MPC (o mítico Midi Production Center da Akai, utilizado por numerosos produtores de hip hop). É uma máquina de rítmos realmente física, não está dentro de um computador. Além disso é aquele som… um som de 12-bit com uma resolução bastante baixa. Consegue produzir alguma distorção que outras máquinas de ritmos não conseguem.

A última vez em que, de modo genérico, as pessoas tomaram contacto com o seu trabalho foi através da edição do álbum assinado 13+God, resultado de uma colaboração entre os Themselves (projecto de que Jel faz parte) e os Notwist (alemães amantes do rock experimental). Que efeito teve essa colaboração sobre si, já que não é todos os dias que as pessoas se cruzam com trabalhos conjuntos como esse? Como descreveria essa experiência?
Teve um grande impacto em mim, desde logo por tê-los conhecido. E abriu as nossas próprias perspectivas, com a nossa música a chegar a mais sítios do que as universidades nos Estados Unidos. A maioria das pessoas opta por fazer música depois de uma digressão, por isso há aqui uma grande diferença. Tivemos a oportunidade de trabalhar música por todo o mundo e depois distorcê-la, creio eu, durante o processo. Fico mais atento à música, aprendo ao trabalhar com outros músicos. Foi muito bom trabalhar com os alemães Notwist para variar das pessoas da minha vizinhança.

Como se processou esse trabalho? Enviavam uns aos outros pedaços de música através da internet?
Não foi tanto através da internet, mas através de discos rígidos e discos gravados. Trocámos música, na realidade. Creio que eles nos mandaram cinco temas e nós mandámos-lhes uns cinco ou seis. Trabalhámos assim na música uns dos outros e juntámo-nos na Alemanha, onde finalizámos tudo e onde inclusivamente, em estúdio, criámos mais alguns temas em conjunto.

Tendo falado dos 13+God, não podemos deixar de falar na Anticon, a editora. Vê-a como um daqueles casos em que o nome de uma empresa é por vezes mais importante e influente do que a música que propriamente edita? O que tem a Anticon que gera um fascínio especial em muita gente, uma vez que os discos não são todos iguais?
Tem havido uma tremenda confusão acerca da Anticon, especialmente porque as pessoas, particularmente a imprensa, olham para a editora como um colectivo de artistas. Quando os discos são editados, parecem não ser vistos como vindos de projectos diferentes, mas da Anticon. Não são os Why?, não é o Jel, não são os Themselves ou os 13+God. Muitas das vezes pensam que se trata apenas de mais um disco da Anticon, mas todos os diferentes grupos têm procurado desenvolver o seu som de modo a que tenham o seu próprio estatuto, o seu próprio nome.

Como vê esta abertura estética relacionada com a Anticon? É óbvio que se trata sobretudo de um universo hip hop, mas tanto os Why?, como o próprio Jel ou os 13+God, vêm mudando o seu som. Diria que estão a explorar novos territórios?
Estamos, de uma maneira de outra, a explorar novos territórios dentro de cada um de nós. Não temos uma intenção deliberada de fazê-lo assim, como no caso dos 13+God. Nunca pensámos “vamos fazer um disco com uma banda de rock de radio e torná-la acessível”. Trata-se, sobretudo, de uma procura individual de cada um de nós.

Passam agora três anos desde que editou o primeiro álbum assinado Jel. Quão diferente diria que é este “Soft Money” desse outro, “10 Seconds”, não apenas em termos de resultado final mas também da forma como abordou ambos os discos?
As coisas mudaram muito, decididamente. O que fiz em “10 Seconds” foi como que juntar aquilo que eram “Greenball” e “Greenball 2”, umas colecções de beats que tinha editado. O que tinha em mente para esse álbum não, ainda assim, completamente diferente daquilo que tinha em mente para “Soft Money” – transformar um conjunto de canções inteiras num álbum, num LP, e não apenas num conjunto de beats. Todas as canções de “Soft Money” são aquilo que queria. Queria que tudo fosse muito mais musical, que além da máquina de ritmos pudesse juntar guitarra, teclas, outras pessoas.

Como se dá esse processo de envolvimento de outros artistas da Anticon na música que faz?
Em “Soft Money”, trabalhei com algumas figuras nucleares da editora, como Why?, Doseone (seu companheiro nos Themselves), Pedestrian, Nosdam… Ouvi aquilo que andavam a fazer e achei que podiam envolver-se. Deixei-os escolher as canções, ao invés de levar uma em mente e pedir algo de específico. E em relação a pessoas como (Martin) Dosh e Andrew Broder, mandei-lhes umas quatro canções e eles decidiram tocar em 12, tendo eu depois que fazer uma selecção. Se fosse como eu realmente queria, as pessoas tocariam o que quisessem e eu depois cozinharia tudo em canções.

Sabe, certamente, que muitas pessoas utilizam o adjectivo “inteligente” para descrever alguma música feita sem instrumentos “reais” e fora do circo do rock’n’roll. Diria que é justo chamar a “Soft Money” um disco de hip hop inteligente?
Sim, inteligente é uma palavra que tem tido um entendimento estranho, alguns mal-entendidos… Esta música é mais inteligente do que muita daquela que é editada, no que ao conteúdo diz respeito, às palavras, ao conceito das canções. “Inteligente” é uma palavra muito abrangente, mas este disco é decididamente um disco mais concentrado. Não tem um conceito geral em que várias pessoas falam sobre sistema ou consciência social, não era minha intenção pregar o que quer que fosse. Não tento apenas abordar todo o materialismo ligado à música em geral, não é só isso que faço. Não é minha intenção chegar aos miúdos do liceu que querem esbanjar dinheiro em porcarias. Trata-se mais de estar atento ao que me envolve, aprender a distinguir o certo do errado, tirar partido disso.

Não apenas neste disco, mas ao longo do seu trajecto como produtor, trabalhou com diversas pessoas diferentes, de músicos a cantores. O que é que procura quando convida outras entidades para trabalhar consigo? O que procurava especificamente quando começou a trabalhar para o álbum “Soft Money”?
Quando escolho alguém, como as pessoas que escolhi para trabalhar em “Soft Money”, tenho como certo que toda a gente é capaz de fazer precisamente aquilo que idealizo. Mas quero apenas que toquem juntamente com a música. É uma vantagem conhecer todas estas pessoas e a sua música, pois faz-me sentir confiante acerca dos resultados.

Num comunicado de imprensa a respeito de “Soft Money”, é descrito como “the head architect of Anticon’s aural acropolis”. Como o faz sentir este retrato?
(Risos) Foi o Pedestrian (outro dos artistas ligados à Anticon) quem escreveu essa biografia. Não deixa de ser engraçado ter alguém dentro de casa a escrever a nossa própria biografia, seja Why?, Doseone, Pedestrian… Eles escrevem coisas que me fazem rir, mas transmitir isso aos outros é uma coisa completamente diferente. É algo que não se pede à mãe para escrever, mas ele escreveu-o e ficou assim…

Ele pode exagerar à vontade…
Mas as pessoas agarram-se a isso. E, de alguma forma, sinto alguma relação com esse retrato. Sobretudo, quando isso foi escrito, o que se passava é que eu era o produtor mais bem estabelecido de todos nós, fazia imensas colaborações…

Depois de “Soft Money” ser editado, o que se segue no futuro próximo artístico de Jeffrey Logan?
Há muitas coisas a acontecer. Estou agora a misturar o novo álbum álbum dos Subtle, para sair no Verão, estou a trabalhar com Mike Patton nos Peeping Tom e entretanto tenho estado com o Doseone a fazer algumas programações e gravações de voz para um álbum nosso.

E sobre os 13+God? Vai haver mais discos?
Sim, temos isso em mente. Provavelmente, no final do ano começamos a pensar nisso e eles virão até São Francisco. Como da ultima vez fomos nós lá, pensei em tê-los em São Francisco para o segundo álbum.

Texto: Pedro Gonçalves

CRÍTICAS

Beastie Boys

Beastie Boys
Solid Gold Hits (Capitol/EMI)
Sendo este um “best of” sucinto quando comparado com o duplo e ambicioso “The Sound of Science”, esta compilação dos Beastie Boys acrescenta-lhes à discografia aquele disco que por vezes é desejado ouvir quando se quer ouvir o que é mais familiar. Por outras palavras, este é de facto o disco dos “hits”.
Poderia incomodar, o que perfeitamente se compreenderia, a teor vagamente aleatório da ordem escolhida para o alinhamento, mas a verdade é que os temas todos parecem fluir sem atritos desde “So What’cha Want” a “Fight for Your Right”, respectivamente a abertura e o fecho da emissão do trio nova-iorquino. Talvez seja pouco interessante recordar, nesta altura, a relevância do grupo na História do rap e do hip hop nos Estados Unidos, que se prolonga para lá do facto de se traterem de três “caras pálidas”.
Só quando se pensa verdadeiramente em coisas que ficaram de fora, como o pouco propalado e altamente recomendável álbum instrumental “The In Sound From The Way Out!”, já a caminho dos 10 anos de idade, é que se retira um outro ponto ao somatório de 15 temas (“Body Movin’” na versão remisturada por Fatbot Slim) que, em épocas e contextos totalmente distintos, assumiram indiscutível relevância eventualmente explicada pela Sociologia.
(8) PG

Graham Coxon

Graham Coxon
Love Travels at Illegal Speeds (Parlophone/EMI)
Os Blur foram, queira-se ou não, uma das mais importantes bandas dos últimos 15 anos da música de produção britânica. Embarcados à força na cena então denomidada britpop, foram muito mais longe do que isso. Desistiram, em boa hora, de guerras sociais estéreis. Os Blur tinham no seu guitarrísta e principal pensador musical um músico absolutamente excepcional. Simplesmente, a dada altura fez todo o sentido que lhe começasse a faltar espaço para o que desejava fazer. Que começou por ser, diga-se, uma bizarra reanimação de um certo imaginário Syd Barrett.
Nesta altura já perfeitamente habituado às edições em nove indivivual, Graham Coxon trata de fazer deste Love Travels at Illegal Speeds um perfeito retrato de uma convivência quase impossível entre uma perfeita noção de contemporaneidade exterior e a capacidade de auto-concentração. Por isso, Love Travel at Illegal Sounds tanto pode cair nas graças dos que redescobriram o rock na última meia-dúzia de anos como daqueles que cresceram a saborear uns quantos cantautores da música feita ao longo da História do Reino Unido. Mas também há Ramones e Brian Wilson. Sortido finíssimo de canções.
(9) PG

01 março 2006

Iniciativa popular

Dave Matthews

Andando aqui numa pesquisa sobre certo e determinado assunto, dou com um maravilhoso pedaço de informação, daqueles que de quando em vez aparecem e alegram toda uma casa. Está online uma petição para trazer ao Rock in Rio Lisboa 2006 a Dave Matthews Band. Que, segundo se anunciava quando da minha casual passagem, ia com 2430 assinaturas.

A iniciativa popular é coisa de enaltecer. Estes pequenos movimentos que, de forma pacífica e ingenuamente inútil, pretendem agir sobre o imenso colectivo que os rodeia com generosidade merecem habitualmente uma recompensa.

Pois que venha ela, por exemplo, na forma de música, ou de cerveja fraca e gelada, ou ainda de contas poupança-habitação. Não há necessidade é de tirar Dave Matthews lá do país onde actua 537 vezes por ano para uma deslocação passageira a Lisboa.

É uma canseira, não vos meteis em tal empreitada. Além do mais, e acho que era aqui que queria na realidade chegar, Dave Matthews é chato como a potassa, inofensivo, incolor e inodoro.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

Coisa mai' linda...

Tchi! Cinco dígitos no manhoso contador de visitas deste abrigo (está por aí â direita, para quem nunca viu).

Obridadinho. A sério. Obrigadinho pela condescendência*.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

*Expessão assumidamente usurpada a J.P. Simões num momento particularmente hilariante num concerto dos Belle Chase Hotel na Aula Magna.

Carnaval

Já passou o Carnaval, não passou? Já é possível ter uma vida normal, não é? Obrigadinho.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.