31 julho 2006

1 Pouco Mouco@Mondo Bizarre #26

Mondo Bizarre #26

A contribuição do pequenito para a mais recente edição da Mondo Bizarre segue em baixo.

THE LEGENDARY TIGER MAN
MULTIMÉDIA DO IT YOURSELF

The Legendary Tiger Man

O mais vivo dos artistas portugueses vivos deu este ano à estampa o álbum Masquerade. Sob a designação The Legendary Tiger Man, Paulo Furtado é cada vez menos um parasita da música, criando e sorvendo inspiração em todas as artes.

O ideal, digo eu, seria encontrar-me com Paulo Furtado num motel da Route 66, a lendária estrada que liga as costas dos Estados Unidos. Não só porque a sua música para aí me remete mas também porque é lá que o próprio vai estar dentro de pouco tempo a filmar um documentário em Super 8. Mas não. É numa tarde de Abril num hotel do centro de Lisboa que nos encontramos, como normalmente só acontece com gente “lá de fora”.
Apesar de ter como pretexto o recente Masquerade, mais de uma hora de entrevista com Paulo Furtado revela nesta altura um artista pródigo em ideias, intenções e necessidades. A Paulo Furtado já não interessa parecer um discípulo do espírito punk rock. Interessa-lhe todo a criação visual que ilustra os nossos dias, interessa-lhe saber como são os criadores que o inspiram. Em discurso directo, o homem sem o qual a música feita em Portugal seria um tédio.

Começo por uma pergunta mais genérica e não apenas centrada no álbum Masquerade. Algo que me interessa particularmente na personagem The Legendary Tiger Man é uma aparente contradição que acaba por parecer uma complementaridade natural: juntas ao conceito da “one man band” uma componente visual fortíssima, nomeadamente através de vídeo e fotografia. Sentes, de facto, essa necessidade de mostrar mais do que a música? De onde vem essa necessidade?
Acho que não existe uma contradição, mas a preocupação e a vontade de que o projecto seja mais do que música. E cada vez mais está a evoluir nesse sentido. Por exemplo, no livro anterior, In Cold Blood, já houve uma exposição de fotografia autónoma, que ganhou vida própria, e neste disco também há uma exposição de fotografias que tem vida própria e vai onde quer. Todas as curtas-metragens têm também vida própria e estão espalhadas por festivais a concorrer aos mais diversos níveis. A questão da imagem, e mesmo o suporte da imagem, acaba por ser toda feita em Super 8. Acho que a relação que há entre o Super 8 e o cinema é semelhante à relação entre aquilo que eu faço e a música em geral. Portanto acaba por ser tudo bastante directo, bastante simples. Não acho que as coisas tenham que ser pobres. No álbum Naked Blues, por exemplo, o disco foi gravado num pequeno estúdio fraco, o vídeo foi rodado com dois projectores e o primeiro partiu-se antes de começarmos a filmar. Tudo isso acaba por ter que despoletar em ti uma maior criatividade e capacidade de superar obstáculos. Nesse aspecto, isto acaba por ter um pouco o espírito “do it yourself”. É, se calhar, essa a única ligação que tenho ao punk rock: quando não estiver lá ninguém para empurrar o projecto estarei sempre eu.

Não é a primeira vez que te faço esta pergunta, mas é seguramente a primeira vez que a faço para a Mondo Bizarre. Sentes que Portugal é um país culturalmente interessante, e não quero dizer diminuído, para assimilar o universo criado pelo Legendary Tiger Man?
Acho que temos uma série de handicaps que não têm directamente a ver com os artistas propriamente ditos. Há é uma bolha de infraestruturas que não existe, de apoios que não existem, de talento que em última análise não é reconhecido nem apoiado. Mas acho que, se calhar, apareceram nos últimos 10 anos os projectos mais interessantes de sempre na música portuguesa.

Mas não existe uma ligação cultural natural entre a tradição portuguesa e aquilo que fazes. Assimilamos facilmente aquilo que fazes ou continuas a ser, para muitos, uma espécie de freak show?
Sem ter especificamente a ver com Portugal, para muitas pessoas hei-de ser sempre um freak show. Para outras sou mais um projecto de música que poderá ou não agradar. Mas acho que há uma belíssima receptividade, neste momento. Só tive recepções menos boas na primeira digressão que fiz. Mas muitas vezes eu sinto-me mais estranho em relação do que o público em relação a mim. Às vezes olho para o público e parece que estou num concerto de punk rock há 15 ou 20 anos. Isso é estranho. E acho que se calhar só daqui a três ou quatro anos vamos ter uma verdadeira revolução do rock em Portugal. Se formos a ver as coisas ao longo do tempo, nunca houve um mega-público ou um mega-movimento à volta do rock em Portugal. Esse tempo ainda não aconteceu, só um pequeno momento há 10 ou 15 anos que não teve seguimento.

Mas esse movimento começa a fazer-se notar, como sempre fora do circuito da grande indústria.
É natural que assim seja. Há muitas bandas que estão a começar e que, por exemplo, me vêm perguntar que manager devem procurar. Isso é um absurdo. Acho que há timings para tudo e, em última análise, as bandas têm que crescer por si próprias e apoiadas no seu trabalho. Tudo o resto que possa aparecer tem que ser suportado pelo trabalho da banda.

Sentes-te bem nesse papel de conselheiro?
Não. As coisas que fiz na minha vida estão certas para mim mas não estarão para muitas outras pessoas. Partilho o que sei com muito boa vontade, mas temo sempre que o que para mim é verdade possa ser falso para outra pessoa, outra carreira, outro tipo de música. No fundo, o derradeiro conselho é que não existe nenhuma fórmula nem método exactos.

Entre essas pessoas que te abordam, o que é que te tem chamado a atenção musicalmente?
Isto pode soar muito mal, mas não me chegou nos últimos tempos nada que tenha achado muito interessante. Há coisas a que reconheço valor, mas sou uma pessoa que tem uma ligação à música muito perto do coração. Dentro do seu patamar, os Vicious Five são das coisas mais interessantes que apareceram, que estão a fazer as coisas de um modo adequado sem perguntar nada a ninguém. Saíram daquele pequeno clube underground lisboeta, daquele underground fechado e quase elitista que funciona como um tampão para que o rock possa crescer.

Falando especificamente de Masquerade, um dos elementos que me chamou desde logo a atenção ao ler os créditos do álbum, e não através da sua música, foi o facto de a produção ser assinada pelo Mário Barreiros. Isso parece, pelo menos à priori, ilustrar uma vontade de sofisticação que vem do estatuto do Mário e que será eventualmente para quem te segue uma aparente negação daquele lado propositadamente cru da música do Legendary Tiger Man. Obviamente, o que te pergunto é qual a tua visão sobre essa escolha.
O que eu quis foi a potenciação over-the-top de tudo o que ele faz. Foi, assumidamente, tentar chegar ao maior power, ao melhor grave… Já fiz tantos anos discos lo-fi, como muitas coisas ainda faço, que a certa altura senti espaço para uma parte hi-fi, como já havia uma parte hi-fi nos WrayGunn. Acho que tanto o Mário como o Nelson Carvalho, em quem tinha também pensado mas com quem não foi possível trabalhar neste disco, seriam as pessoas mais indicadas para potenciar a música que queria gravar neste álbum. O Mário foi pura e simplesmente isso, não houve embelezamentos desnecessários. As pessoas têm muitas vezes, erradamente, a ideia de que o Mário vai mexer e adocicar as coisas, mas ele é acima de tudo um excelente produtor que chega a diversos universos e tem variadíssimas abordagens para a produção. Num projecto como o meu, e ele foi dos mais acérrimos defensores disso, não fazia sentido grandes overdubs ou grandes embelezamentos. As coisas ou funcionavam ou não.

Inevitavelmente, falamos também de convidados. Começando pelo Dead Combo, que participa em “Let Me Give it to You”, mesmo encaixando-se eles como uma luva na tua música, o que é que procuravas exactamente quando os abordaste para aquela lenta viagem pelas guitarras do imaginário western?
Foi uma coisa instantânea. No momento em que acabei a música liguei ao Tó (Trips, guitarrista do Dead Combo) a dizer-lhe que precisava deles para passar aquele tema para um outro patamar. Achei que era a cara deles. Senti desde sempre naquela música uma vibração que me remetia logo para o Dead Combo. Senti mesmo que o que ali faltava era a ambiência deles, que a coisa podia ir muito mais longe com uma segunda guitarra, que podia ganhar uma paisagem Sonora próxima da dos Dead Combo. A música deles é para mim bastante física, apesar de abstracta em alguns pontos. Consigo perfeitamente imaginar os Dead Combo no Ribatejo. É o deserto português, que tem tantas influências de Portugal como de todo o lado. Quando agora se fala de novo fado e dessas coisas, se calhar é o projecto que consegue ao mesmo tempo ser cosmopolita e estar com os pés na terra.

Depois, claro, falemos também de Nelassassin, que com o João Doce te acompanha em “Say Hey Hey”. A experiência com DJs não é inédita para ti, como sabe quem conhece os Wray Gunn, mas qual foi a motivação para acorrer àquele que é reconhecido como o melhor DJ de hip hop e turtablist português? Porque é que a música não estava completa sem o seu scratch?
O Nelassassin, em primeiro lugar, é para mim o scratcher mais rock’n’roll do hip hop português, até pelo modo como ele está em palco. Tenho uma empatia especial com ele. O que me levou a convidá-lo foi o facto de sentir o “Say Hey Hey” como uma música de hip hop, para ser sincero. Talvez pela voz e pelo que está na minha cabeça em termos de groove e que até pode nem estar tocado. Está tão próximo do hip hop como está dos blues, e nesse sentido também foi instantâneo sentir a necessidade de um scratch. Mesmo que eu não o transmita do modo mais óbvio, o hip hop faz parte dos meus universos. Acho que o que é grave é quando as pessoas se transportam para guetos culturais de onde não saem, se fecham em normas, comportamentos e padrões. Isso acaba por ser a morte dos géneros.

O teu fascínio por um universo musical americano ligado aos blues e ao rock’n’roll não é naturalmente novidade para ninguém, mas é curioso como as versões que escolhes fazer são de canções que parecem poder ser tuas desde o princípio, como acontece neste disco em “Route 66” e “Blue Moon Baby”. Conhecendo-te, nem sequer falo no medo de sair para fora de pé, mas também não sinto essas versões como corriqueiras homenagens. Qual é então o critério de quem as faz?
Em Legendary Tiger Man é o critério mais empírico do mundo, é eu estar sempre a tocar versoes diferentes e ir tocando-as nos concertos. Depois sinto que posso fazer algo de interessante com algumas delas, daí gravá-las, mas para mim é um exercício de experimentação e aprendizagem. Não escolhi essas duas músicas por serem um marco na História dos blues ou do rock. Houve uma altura em que os músicos tocavam alegremente as músicas uns dos outros sem grande preocupação, e em Legendary Tiger Man faço isso com uma despreocupação quase displicente ou até com falta de respeito para com os originais. Tendo o maior respeito pelos autores, quando faço uma versão não tenho qualquer limite ou pudor em alterar a música como achar conveniente. Sabendo que isso vai chatear pessoas, que algumas se indignam.

Isso acontece, de facto?
Meu caro amigo: há sempre pessoas a dizer mal de tudo. Eu, por outro lado, acho que se deve tocar em tudo, sem limites, sem fronteiras. Se formos a ver, nunca pedi autorização para fazer versões. Faço os discos e registo-os com as versões, sendo pagos os direitos a quem os detenha.

Em relação a Masquerade, começámos a conversa pelo fim. Indo directamente ao início, depois de Naked Blues, Fuck Christmas I Got the Blues e In Cold Blood, de que ponto da tua massa cinzenta começou o novo álbum? Mesmo que as pessoas possam não ter a noção disso, sentes habitualmente necessidade de romper conceptualmente com o que fizeste antes de cada novo disco ou a coisa processa-se de outra forma?
O ponto de partida acaba por ser sempre a fase da composição geral das canções, nunca penso que o meu próximo disco deve ser mais isto ou menos aquilo. É uma evolução natural, acho que nunca houve uma ruptura de há 15 anos para cá. Isto até é um processo bastante idiota, porque acabo por ir atrás das canções, e não as canções atrás de mim. Há alterações que faço no meu set, como a divisão de amplificadores – guitarra para um lado, baixo para o outro… Por exemplo, uma canção como “The Whole World’s Got The Eyes On You” pedia um baixo constante e uma guitarra saltitante. As direcções que tomo acabam por ser motivadas pela necessidade de as canções chegarem mais longe. Neste disco, por exemplo, tenho um tema com cinco anos, “Bad Luck Rhythm’N’Blues Machine”. É das primeiras músicas que fiz e só agora, com a introdução de uma parte electrónica, senti que tinha algum interesse em ser gravado. Já a versão gravada de “Masquerade” foi totalmente feita já no estúdio. Este é, portanto, provavelmente um disco que resume mais ou menos o meu trajecto nos últimos anos, tanto a nível musical como da fotografia e das curtas-metragens. Pode ser o culminar de uma fase. Não sei se para a frente a coisa mudará muito, acho que não.

Reportando-me apenas ao lado visual de Masquerade, de uma capa que parece revelar algum glamour romântico, apercebêmo-nos depois que acabas como que numa morgue a executar aquilo que parece uma autópsia. Sei que pedir explicações sobre estas opções criativas não é normalmente de bom tom, mas é isso mesmo que te faço neste momento. O que é que realmente se passa nas imagens que acompanham o disco?
As imagens são baseadas numa série de filmes, ou de cenas de filmes, mais ou menos importantes. É uma espécie de mistura entre “Frankenstein”, “Psycho” e “Freaks”, é a história de um homem que não quer separar-se do amor da sua vida. Ou que quer criar o amor da sua vida, conforme as interpretações. No fundo, tem sempre várias mensagens intrínsecas: uma pode ser que as coisas não são sempre aquilo que parecem, como no tema fantástico do Bo Diddley, “You Can’t Judge the Book by Its Cover”. E estão lá elementos dos filmes de terror antigos, a maior parte deles com crítica social e mensagem subliminar, em que o monstro acabava por ser a única personagem com alguma honestidade e humanismo. Gosto de brincar e subverter os temas, como poder haver quem olhe para a capa e pense que se trata de um disco de tangos. O que quero salientar é que a realidade é sempre assustadora do que a ficção. Quando andava a fazer alguma pesquisa sobre taxidermia humana, encontrei uma empresa nos Estados Unidos que pode enbalsamar por um preço bastante razoável o teu ente querido falecido. Para poderes estar sempre com ele, para poderem fazer almofadas com a sua pele e outras coisas extremamente bizarras. É uma empresa que se chama Forever Yours. Portanto gosto de brincar com os fantasmas.

Não sendo esta uma revista do mundo dito cor-de-rosa, não te vou falar do teu casamento, mas daquilo que vais fazer em seguida, uma lua-de-mel on the road pelos Estados Unidos acompanhado por uma câmara Super 8. Do ponto de vista artístico o que vais efectivamente fazer nessa viagem e com que resultado gostavas de regressar?
O meu objectivo é fazer um trans am, ir encontrando geograficamente na América alguns artistas dos mais diferentes meios e fazer um retrato de uma “outra” América, invisível aos olhos de muita gente. Há uma série de projectos, tanto a nível musical como de fotografia e cinema que gostaria de conhecer e perceber melhor. No fundo, trata-se de um documentário que não tem nada a ver com lua-de-mel mas com um trabalho de descoberta. É algo que pressupõe algum planeamento mas há também uma quota de incerteza, nomeadamente porque alguns artistas já estão falecidos. Nestes casos, vai ser tentar chegar aos locais e falar com quem esteve directamente com esses artistas. Mas fazer os Estados Unidos de costa a costa de carro envolve sempre a imprevisibilidade que se cruza contigo.

Levas a guitarra?
Não, de modo algum. Vou pôr de parte o lado musical temporariamente.

Pedro Gonçalves

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ESG
“Oh my god, that’s the funky shit!”

ESG

Há mais de uma vintena de anos, as ESG frequentavam o nova-iorquino Roxy, entre gente como David Bowie e Andy Warhol. Aí viam o hip hop afirmar-se como cultura consolidada, mas a verdade é que foi aquele parciomonioso funk pós-punk que lhes deu fama (relativa). A história continua em 2006.

“Oh my god, that’s the funky shit!”. O grito, celebrizado pelos Prodigy no álbum The Fat of the Land, agarra-se que nem lapa ao novo álbum das nova-iorquinas ESG, como sempre se agarrou desde que Renee Scroggins arregaçou as mangas para, com os esparsos meios de que dispunha, transmitir uma visão paradoxalmente despida e carregada de groove daquilo que era a criação musical nas franjas do então emergente hip hop, agigantado por gente como Afrika Bambataa e a sua Zulu Nation, mais as crews de b-boys e os writers ligados ao graffiti aceites em galerias como qualquer artista plástico. Nesse contexto, em que também a estética e o ideário pós-punk procuravam saídas nos mais diversos domínios da criação artística, as ESG surgem como uma forma descarnada de combinar, essencialmente, batidas obesas com linhas de baixo proeminentes a que se juntavam, com a citada parcimónia, melodias de guitarra e apontamentos vocais relativamente simples, o que com naturalidade não era nada desprezível no circuito dos clubes dedicados à dança. Oriundas do Sul do Bronx, as ESG eram, para seu bem, muito mais do que um produto do Sul do Bronx na transição da década de 80 para a década de 90 do século XX.
O universo da música popular tem depois, como se sabe, casos que, não sendo inexplicáveis, carecem de atenta análise para serem compreendidos. As ESG (Enterprising Scroggins Girls) deram os seus primeiros registos à estampa no dealbar dos anos 80, marcando desde logo os primeiros pontos na denominada música de dança, universo em que inclusivamente contaram com o já mítico apoio de Martin Hannett. Eram então as irmãs Scroggins e Leroy Glover, encarregue do baixo. Escassos anos depois dessas primeiras aventuras em disco, desmembraram-se, sendo o seu legado aproveitado até ao seu reaparecimento, em 1991, por nomes diversos ligados ao hip hop, dos Wu-Tang Clan aos Beastie Boys. O mistério ESG reside, precisamente, no facto, de não protagonizarem desde então um regresso excrementício, como foi por exemplo o de uns Kraftwerk. Fiéis aos cânones originais, mostraram-se relevantes quando o mundo ainda não vivia à sombra do chamado electro-punk nova-iorquino da década presente.
Arriscaram em voltar a gravar originais, que não funcionaram apenas como delícias retro. Foram sempre mais do que isso, foram sempre um apelo naturalíssimo à reacção sobretudo física dentro de um universo aparentemente limitado. Em 2006, as ESG editam Keep On Moving e, surpresa das surpresas, volta a estar lá tudo com uma relevância sobrenatural. De experiências lânguidas downtempo (“Purely Physical”) à soul quebradiça (“I’d Do It For You”), do funk mais arredondado (“Keep On Moving”) a um R&B de fazer inveja (“Ex”), Keep On Moving mais não faz do que sublinhar a necessidade que a humanidade cada vez mais sente no acesso ao congelamento de corpos e ideias para utilização futura. As ESG, com toda a sua limitada artilharia, não são de tempo algum, caramba. E isso é que impressiona. Com toda a certeza, ao passearem nas ruas de uma Nova-Iorque armada ao pingarelho, são as manas Scroggins quem hoje continua a rir-se.
Pedro Gonçalves

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GNARLS BARKLEY
O Rato Pariu Uma Lomba

Gnarls Barkley

De persona non grata para a indústria do disco a espécie de Midas do hip hop menos cintilante, Danger Mouse é um dos homens mais respeitados do universo. E o que é que os Gnarls Barkley têm que ver com isso?

Interessa recordar que toda esta história começou, em matéria de notoriedade popular, com um disco que podia ser incluído entre muitos outros da categoria dos mash ups. Corria o ano de 2004 e Danger Mouse, apesar de não ser então propriamente virgem em termos de produção musical, foi protagonista de uma das histórias que possivelmente figurará nos tomos enciclopédicos dedicados ao entretenimento deste início de século. Grey Album, o disco que disponibilizou gratuitamente na internet, mais do que ser uma elegante e cuidada salada feita a partir de White Album, dos Beatles, e de Black Album, de Jay-Z, representa ainda actualmente um dos pontos-chave do relacionamento das multinacionais dos fonogramas com os downloads. Com a EMI a colocar Danger Mouse na lista dos homens a abater (como se sabe, nos Beatles ninguém pode tocar), muitos milhares de consumidores responderam com o download “organizado”, praticamente formando uma linha de frente no combate ao corporativismo multinacional. Damon Albarn, dos Blur e Gorillaz, que por acaso também está contratualmente ligado à EMI, não foi de modas e tratou de chamar Danger Mouse para dar música às suas criações símias. Daí a gravar com MF Doom o projecto Danger Doom e agora este St. Elsewhere a mielas com o MC Cee-Lo vai coisa pouca.
E aqui voltamos ao fenómeno dos downloads. Ainda antes de ser um rebuçado que já correu a boca de metade da população mundial, o single “Crazy” instalou-se directamente no 1º lugar do top de downloads legais n o Reino Unido. O que, imagina-se, deve ter dado especial gozo a Danger Mouse. Mas se “Crazy”, descontando um refrão substancialmente irritante, para não dizer histérico, é uma bomba melódica e rítmica de fina estirpe, St. Elsewhere não é todo ele um objecto de génio. É, muito provavelmente e por via de uma aproximação a sonoridades amigas do ouvido pouco calejado, uma aventura relativamente atribulada. Se, por um lado, Danger Mouse e Cee-Lo, que tem um registo “funk soul brother” nada desprezível, dificilmente padecem da absoluta irrelevância (acontece em “St. Elsewhere”, na versão pateta de “Gone Daddy Gone”, dos Violent Femmes, “The Boogie Monster”, “Who Cares” e “Storm Coming), também é fácil constatar que uma propositada esquizofrenia estética não resulta em muito mais do que um álbum à volta de uma canção efectivamente magistral (tirando a tal questão do refrão). Produtor inspirado e amiúde gozão, Danger Mouse não deixa de infectar praticamente todos os temas com generosos pormenores de samplagem e reconstrução. Cee-Lo, por seu turno, sabe tirar partido do facto de poder ser mais do que um rapper. Alguém deveria explicar-lhes, no entanto, que o grau de exigência se situa agora no que é novo e no que é bom. Não apenas num single.
Pedro Gonçalves

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Dead Combo
Vol. II: Quando a Alma Não É Pequena (Dead & Company/SonyBMG)

Dead Combo

Um dos riscos inerentes à criação de um espaço de intervenção aparentemente identificado e delineado é o de nunca de lá querer o conseguir sair. Na música, isso significa que quando um artista ou um grupo se situa num ponto estético confortável apesar de solitário corre o sério risco de fazer o mesmo disco vezes sem conta. Porque sabe bem, porque é o que conhece e domina melhor. Os Dead Combo, de Tó Trips e Pedro Gonçalves, poderiam muito bem ser um desses casos. Como se sabe, o primeiro volume desta viagem a dois pintava já a giz no alcatrão um universo de actuação raríssimo e delimitado pelo imaginário western, gingão e subliminarmente português para não dizer lisboeta (mesmo que falar de peremptoriamente de fado a propósito dos Dead Combo seja um uma divagação). Seria, então, o Vol. II igual ao primeiro?
Resumidamente, sim. É de facto irmão do primeiro. Só que os Dead Combo mostram, à semelhança de bandas tão díspares quanto uns Morphine, uns Stereolab ou uns Spacemen 3, no quarto que escolheram habitar os mesmos brinquedos podem ser usados em actividades lúdicas sempre novas. Quando a Alma Não É Pequena assenta, naturalmente, nos dedilhados vindos de middle of the road executados por Tró Trips (que com o fim dos Lulu Blind adquiriu alma musical bem mais profunda) e no registo grave, sobretudo nas cordas, de Pedro Gonçalves, que se encarrega de oferecer o peso do contrabaixo. Mas não é, para bem do acto de criar, só isso.
Em Quando a Alma Não É Pequena pode, com naturalidade, saltar à vista que qualquer novidade só poderá vir das mãos de convidados como Paulo Furtado, Sérgio Nascimento ou Nuno Rafael. O que é verdade, até certo ponto. Porque o que aqui importa não é tanto quem o faz, mas como é que os adornos são feitos e colocados na música dos Dead Combo. Muito bem, diria sem pestanejar. É claro que vai continuar a falar-se de música de westerns, e a inclusão de um tema intitulado “Mr. Eastwood” parece dar o aval ao sentimento, mas nunca a coisa se esgota aí. Na realidade, é muito mais assimilar à primeira elementos com origem nos blues, no tango, num fadinho corrido ou mesmo no flamenco do que uma coboiada de John Wayne.
Os Dead Combo resolveram não se afastar muito do seu acampamento e, mesmo com área de intervenção não muito ampla, fazem intrumentais (mas não só) que mostram haver ainda o mundo inteiro para descobrir no espaço de dois metros quadrados
(8)PG

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The Streets
The Hardest Way to Make an Easy Leaving (679/Wea)

The Streets

Passam sensivelmente quatro anos desde que Mike Skinner, sob o pseudónimo The Streets, editou Original Pirate Material e, com esse disco, verbalizou e musicou para uma audiência considerável um movimento criativo que se ia desenvolvendo em zonas demarcadas de Londres. Que partia de padrões próximos do hip hop, é certo, mas que abusava de um orgulho cockney na forma de relatar a vida urbana e mundana sobre ritmos estraçalhados e frequentemente gelados. Em quatro anos, do grime ao dubstep de tudo se foi passando, e os Streets assumiram-se objectivamente como o valor mais seguro na bolsa de investimentos. Chama-se sucesso comercial.
Depois de Original Pirate Material e A Grand Don’t Come For Free, Mike Skinner faz deste The Hardest Way… uma espécie de confessionário pós-reconhecimento colectivo, num composto que junta visões do exterior com reflexões sobre o “eu” e que, entre humor e clareza, tem qualquer coisa de viagem narcótica nem sempre inteligível. A verdade é que, se o desafio pode soar desinteressante, Mike Skinner não dispõe da habilidade de cair na nulidade criativa quando produz um disco. É por isso que, em sequência, temas como o irónico-jocoso “When You Wasn’t Famous” e o litúrgico/biográfico “Never Went to Church” não esbarram numa indesejável irrelevância esquizofrénica. Relativize-se o efeito novidade.
(7) PG

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Band of Horses
Everything All the Time (Sub Pop)

Band of Horses

Um dos problemas inerentes a uma entidade musical como a dupla de Seattle denominada Band of Horses é, a juntar ao facto de milhentos criadores escolherem designações artísticas de pendor equestre, o facto de nem os próprios distinguirem, dentro de alguns anos, a sua música da de muitos dos seus pares. Auto-contemplativa até mais não, esta é uma facção que crê nunca esgotar-se o filão que faz a miscigenação entre um rock vagamente pastoril, um psicadelismo moderado e uma existência etérea decorrente de guitarras amiúde cristalinas e vozes que procuram desesperadamente uma aguda harmonia. Falar, portanto, de Neil Young com os Crazy Horse ou dos Flaming Lips é já redundante.
Se existe beleza evidente nas 10 canções que fazem os 36 minutos da estreia em formato álbum dos Band of Horses? Claro que sim. E ela resulta, precisamente, da combinação dos factores enunciados. O pior é que nunca uma canção é mais impetuosa do que a anterior ou do que a que a sucede. Gravitam num limbo de encantamento estéril que, num mundo imperfeito, correspondem à categoria daquelas que apenas fazem número.
(6) PG

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

27 julho 2006

We've got tonight...

Left_Flyer

Não é a mesma coisa do que ouvir Kenny Rogers e Sheena Easton, mas não fica muito atrás.

Ninguém leva a mal se o gentil leitor não aparecer, mas saiba que há maldições do caraças que se podem usar nestas alturas.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

25 julho 2006

O Passeio dos Alegres

Manuel Alegre

Ao contrário do que boa gente quis fazer crer, tenho para mim que a notícia apresentada sobre fundo azul na primeira página do Correio da Manhã desta segunda-feira é uma boa notícia. Por várias razões, das mais genéricas às mais particulares, pessoais até.

Saber que Manuel Alegre, O Lírico, tem direito a uma reforma no valor de €3.219,95 por mês que deriva da sua passagem de três meses, em 1974, pela direcção dos Serviços Criativos e Culturais da Rádio Difusão Portuguesa é um alívio. Numa altura em que os eleitos pedem esforços infindáveis aos cidadãos para evitar a falência da Segurança Social, que melhor notícia para a comunidade do que saber que a Caixa Geral de Aposentações, que trata destes assuntos para a Função Pública, tem assim uns 600 contecos para dar a um camarada? Temos Segurança Social.

Fico ainda mais satisfeito por ter estima pessoal, concretamente, por muitos dos profissionais que actualmente exercem o seu trabalho na Antena 3, uma das estações públicas de rádio. Do José Mariño ao António Freitas, do Carlos Cardoso ao Fernando Alvim, do Henrique Amaro ao Nuno Calado, do Nuno Markl ao Rui Estevão, da Mónica Mendes ao Luís Franjoso, do Gonçalo Castro ao Ricardo Sérgio. Estou francamente feliz por eles, por saber que tenho que preocupar-me mais com a minha velhice do que com as suas. Se em três meses -- de que se esqueceu -- Manuel Alegre conquistou o direito a 600 contecos mensais, qual é a dúvida de que estas pessoas de que gosto serão futuros milionários?

Além disso, e mesmo sem querer, a Caixa Geral de Aposentações acaba, com esta acção, de enviar uma mensagem de incentivo e esperança para os milhares de recém-licenciados ou por licenciar em Comunicação Social. "É isto que temos para vós", parece dizer aquele organismo público. Assim sim, dá para acreditar que os dias vestidos de cinzento escuro estão a acabar.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

23 julho 2006

Stroking Festival

The Strokes

Lisboa Soundz
Terraplano de Santos, Lisboa
22 de Julho

Integrado no plano para a queda do record nacional de concertos e festivais por ano, o Lisboa Soundz foi, desta vez, um lento caminho até um climax previsível e, sejamos justos, perfeitamente compreensível. Não rebentou pelas costuras, apesar de incluir a primeira apresentação dos Strokes em Portugal, mas esteve longe de candidatar-se a um lugar junto ao Hype@Tejo como um dos flops do intervalo estival. Recorrendo à tendência digest que resulra da consolidada premissa de que ninguém lê sobre música, aqui faço o favor de resumir a coisa ao seu essencial. Com um adorno ou outro, talvez.

You Should Go Ahead
Sabe Deus e uns quantos mortais como foi. O que é pena, porque estes portugueses são bons.

Howe Gelb Gospel Choir
Ele, Howe Gelb, estava lá, efectivamente. Mas 10 minutos não dão para análise, mesmo em modo telegráfico.

Isobel Campbell
A moça que em boa hora deixou os maravilhosos Belle and Sebastian é e foi ontem um retrato fiel da irrelevância estética, como aquela brisa de que se fala nos mais duros dias de praia mas que nunca aparece. De tonta terá pouco, apesar de tudo. Parece concordar comigo e ter a convicção de que o álbum feito a mielas com Mark Lanegan, Ballad of the Broken Seas, é o seu únido passo no sentido da excelência. Vai daí, tocou o disco até mais não, mesmo sem a companhia do ex-Scraming Trees. Deixou tantas saudades quanto uma paulada na cabeça.

Los Hermanos
Em processo de aquisição de nacionalidade portuguesa por via do tempo que cá passam, os brasileiros voltaram a instalar a dúvida: o que tem aquela música de fascinante para ser servida em doses paquidérmicas ao incauto lusitano? Lá se vê o fascínio por tudo o que é "alternativo" nos últimos 20 anos de pop e rock, mas nada de verdadeiramente entusiasmante se eleva. Lá irão conseguindo resultados através da insistência, não duvido, mas esta coisa de não sair de cima da banda brasileira mais europeia que se conhece serve para pouco mais do que entreter. Se a música fosse só entretenimento, eram os maiores.

She Wants Revenge
Aqui, digamos, dá-se para muitos o início do festival. Vieram de Los Angeles com um culto simpático à sua volta, ou não fosse o quarteto uma encarnação actualizada (ou não) de uma negritude britânica característica de idos e bons anos. De alguma forma, é como se fizessem um cocktail em que misturam os inevitáveis Joy Division aos mais sofisticados Sisters of Mercy e lhe aplicassem uma infusão de uns Depeche Mode ainda em crescimento. São, no fundo, uma daquelas bandas que parece ter os ingredientes para garantir repetidas passagens por Portugal, tão dado que o país sempre foi a este lado vagamente soturno do rock, mesmo que aqui ele surja em modo quase fashion, com aquele toque modernaço que não envergonha num programa de TV como o de Jay Leno. Resumindo, são interessantes naquela combinação do imaginário urbano-depessivo (quem não tem saudades da expressão?) com elementos que, felizmente, incitam ao bailarico. Têm um dos piores nomes da década, mas estão longe de sê-lo como agremiação artística.

Dirty Pretty Things
Os Libertines nunca foram bons. Nada do que sai das cinzas dos Libertines é bom. A banda mais recente de Carl Barat é tudo menos boa. Quem nunca privou com o som característico de rapaziada inglesa enfrascada em pints desde o berço teve aqui um belíssimo retrato do que isso é: uma nulidade completa, um rock histérico cheio de vontade de fazer canções mas sem qualquer capacidade para fazê-las. Acreditai, gentil leitor, que os inicialmente agendados We Are Scientists são infinitamente mais criativos do que isto.

The Strokes
Em boa parte das vezes, a utilização da expressão composta "muito aguadado", quando aplicado a um concerto, é um perfeito abuso, assim do calibre de palavras como "memorável", "inesquecível" e "inolvidável". Por isso mesmo, é bom quando a coisa é aplicável sem exagero, o que obviamente vinha acontecendo no caso dos Strokes. Desde Is This It que muita gente havia com vontade de ouvir os nova-iorquinos ao vivo e a cores, facto que ficou perfeitamente demonstrado no Lisboa Soundz. E se soa absurda a informação de que os Strokes são a banda de rock mais importante do seu tempo, ao vivo a coisa é, por assim dizer, mais próxima dessa realidade. Em modo coincidentemente digest e em final de digressão, a rapaziada liderada por Julian Casablancas não injecta grande emoção ou o factor risco na sua prestação. Sabem em demasia para fazê-lo. Só que, excepcionalmente, isso é sobremaneira suplantado pelo teor cortante e irresistível (outro adjectivo abstruso mas neste caso perfeitamente justo) das canções. As canções, pois então, aquilo que realmente interessa quando a música se faz com guitarras. Em palco os Strokes não perdem uma grama da sua acutilância, despejam com naturalidade desarmante aquela combinação de ritmo ferroviário e cordas angulares que penetram a carne mesmo à custa de esparsas sequências de notas. Não é difícil imaginar que, para boa quantidade de pessoas, será "memorável", "inesquecível" e "inolvidável".

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

19 julho 2006

Noitxi Quentxi

É hoje, a primeira das duas. É o amor.

Left_Flyer

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

17 julho 2006

Actividade socio-cultural do dia

Belle and Sebastian

E existirá outra, além da de ver os Belle and Sebastian no Coliseu dos Recreios, em Lisboa? Not.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

15 julho 2006

TV On The Radio: Return to Cookie Mountain

TV On the Radio

Ele já por aqui andava, mas ainda não tinha tido, digamos, oportunidade para ouvi-lo. Um artigo no Y levou-me a dedicar-lhe algum tempo e... c'um camandro. É um disco do cacete. É um salto em relação ao de estreia que dá vertigens. E é uma porra tentar descrevê-lo. É assim como voltar a ouvir os Beach Boys, mas num cenário de Revolução Industrial.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

11 julho 2006

Cumprir um dever...

Useless

Uma das mais poéticas e nobres vontades de quem escreve é a de não escrever coisa nenhuma.

Quando a coisa se dá, normalmente dá-se por razões que fazem dele, o que escreve, a criatura especial que deve ser. São momentos em que palavras e ideias, doentes ou furiosas, se amontoam à saída do corpo a uma velocidade incapaz de ser acompanhada pelas mãos. São momentos em que se assimila a inutilidade concecida pelo universo às palavras e às ideias. Nesses momentos, aquele que escreve anda à procura da vontade de escrever.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

09 julho 2006

Auto-promoçao / LEFT

Novamente, com o inestimável labor gráfico de Tiago Machado.

Left_Flyer

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

28 junho 2006

Auto-promoçao

Fremitus 01_07_2006

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

24 junho 2006

Visita da realeza

Don Carlos

Ao contrário de muita gente criada num contexto pop, nunca fui muito dado a flyers. Sou mais pelos posters. No entanto, no final do concerto de Matisyahu, e enquanto esperava pela minha vez de pagar a estada da viatura num parque de estacionamento ali perto do Coliseu, reparei numa silhueta familiar estampada num flyer com as cores do rastafarianismo. Quase toda a gente que ali estava vinha do mesmo sítio que eu, mas ninguém lhe pegou. Está aqui mesmo ao lado.

Isto tudo, na realidade, para dizer que no próximo dia 1 de Julho é preciso ir ao Largo do Mercado, no Montijo, e largar 10 euricos para ouvir uma voz fabulosa da música jamaicana. Está no activo desde 1973 e do seu currículo constam as colaborações como gente como, hum..., King Tubby, Sly & Robbie, Bunny Lee e King Jammy. Para não falar dos Black Uhuru, de que é membro fundador. Recomendo vivamente também a audição cuidada do magnífico Hebron Gate, dos norte-americanos Groundation com a participação dos lendários Congos e desta sumidade. Estou a falar de roots reggae altamente melódico. Estou a falar de Don Carlos.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

IC19 Rules!

Terminou há coisa de uma horita a terceira noite no Mercado, em Lisboa, animada pelo Buraka Som Sistema. Desta vez a suadeira foi ainda maior do que da anterior. Pelo meio tiveram o prazer de partir a loiça no Popular Soundclash, também em Lisboa, e esta sexta-feira uma muito bem esgalhada capa na edição do suplemento Y, do Público. Acredite o estimado leitor que a bomba está mesmo a rebentar. Num curto espaço de tempo passamos da entrada "à brava" para sistema de bilheteira e lista de convidados. Há quem vá gostar de dizer que esteve lá quando a coisa começou.

Musicalmente, não se imaginem revoluções. Se um ou outro tema parece ter maior aprumo do ponto de vista da produção, outros há que facilmente mantêm o Buraka Som Sistema neste casulo semi-underground. Faltará, sobretudo ao vivo, uma coisita de nada de sofisticação, muito mais hooks de produção própria e algum investimento na melhor coordenação entre os três MCs. Isto, ao fim e ao cabo, são pormenores em noites como as que o Buraka Som Sistema tem feito. Com a população a dançar, a suar, a tirar a roupa e, numa manobra deliciosa, a colocar-se de cócoras quando a ordem chega do palco, a coisa está mais do que lançada.

O que agora, neste exacto momento, se espera é que o Buraka Som Sistema tome absoluto controlo da sua produção e não deixe chegar o mérito deste "kuduro progressivo" (designação cada vez mais assumida pelos próprios) a um Diplo, por exemplo. Ele lá terá, e tem, o seu mérito em muita coisa, mas que esta invenção de Campo de Ourique com apeadeiros nas primeiras saídas do IC19 fique numa primeira fase como um produto da cultura de Lisboa via Luanda. Já se perderam tantas oportunidades de marcar pontos que é sempre bom tentar não falhar uma.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

23 junho 2006

Jahlom!

Matisyahu

Matisyahu
Coliseu dos Recreios, Lisboa
22 de Junho

Chegou a altura de defender afincadamente a ideia de que a cultura jamaicana deve ser objecto de estudo obrigatório nas escolas portuguesas, lá para o primeiro ciclo, ou como agora lhe chamam. Continuar a pactuar com a ideia de que o reggae (a forma mais simples de referência à música da ilha de onde saiu Bob Marley) é coisa recente oriunda de estúdios em Berlim ou Long Beach começa a ser verdadeiramente dramático. Absurdo, até, para não dizer absolutamente intolerável. Se é certo que a música se começa a assimilar a partir de um qualquer ponto e que isso é sempre positivo, não é menos certo que desfrutar das delícias rítmicas e melódicas com origem na Jamaica como uma qualquer patetice dos D'zrt é praticamente um caso de polícia.

Isto para chegar à noite de quinta-feira, quando a personagem Matisyahu levou ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa, muito, mas muito mais gente do que se esperaria e certamente muito mais gente do que sucederia na era pré-Gentleman. Afirmar que a composição do Coliseu era feita com uns 80 por cento daquela mole a que alguns gostamos de chamar de betos radicais & suas partenaires não constitui exagero algum. Até aí tudo muito bem, é simpático, é colorido, é, como se diz noutros espaços, gente bonita. O problema, para quem vive estas coisas da música com intensidade superior aos restantes mortais, é a ignorância, a displicência com que tradições se tornam descartáveis, tão duradouras quanto a moca de um charro.

Matisyahu, talvez seja bom esclarecer, está a anos luz de ser um qualquer estandarte jamaicano. Não só porque não tem rigorosamente nada que ver com o país mas porque, e isso é que é mais importante, a sua música se aproxima daquela atmosfera tão depressa como se afasta para tiques próprios do mais formatado rock de pacotilha. É uma chatice, de facto, mas nestas coisas sou vagamente fundamentalista. É por isso que, num concerto desta natureza, um interminável e por vezes atabalhoado solo de bateria é tão imbecil quanto um riff de guitarra armado ao pingarelho. E não deixa de ser curioso que o único momento em que se ouviram apupos ao serão foi durante um instrumental fiel à mais digna tradição do dub, género superior imortalizado por gente como Lee "Scratch" Perry ou King Tubby. Se isto é apreciar a cultura jamaicana, então algo me escapa.

Mas Matisyahu, o artista, não é nada mau. É certo que a predilecção religiosa por momentos de semi-liturgia soa aos nossos ouvidos como sabe ao nosso palato uma sardinha com chantilly, mas a forma como afincadamente aplica a sua voz-reencarnação-de-Brad-Nowell-dos-Sublime sobre uma base competente feita por quem tem escola da coisa é tudo menos desprezível. E chamar, por exemplo, SP & Wilson para colorir um beatbox já de si interessante não deixa de ser estética e culturalmente simpático. Se, como aconteceu, conseguir uma plateia abstrair-se de uma mensagem global sem grande sentido prático, então a coisa chega a ser entusiasmante. Como foi.

Não havia muito para mostrar à populaça, apenas dois álbuns, Shake Off the Dust Arise e Youth. As técnicas próprias das jam sessions trataram do resto, enquanto não soavam os êxitos criados na rádio e na TV, como o trepidante "King Without a Crown", "Chop 'Em Down" ou "Heights", que saca o proverbial início ao clássico "No No No". Com odores fumarentos diversos no ar, rapaziada em tronco nu e jovens moças de camisolitas de alças, a coisa fez-se sem dificuldade. E ainda houve tempo para o número da bandeira portuguesa, símbolo do fenómeno futebolístico como propulsor de orgulho num país da treta. Bem sei que parece aqui existir azedume e ironia aos magotes, mas não tanto. Foi, efectivamente, uma manifestação de entretenimento bem executada.

Como bem executada foi a primeira parte do espectáculo, não anunciada pela organização. Apesar de continuar até esta altura sem saber de que grupo se tratava, foi recompensador assistir a um colectivo português que, militando entre o ska e o reggae, não se entrega em exclusivo aos clichés do costume, os mesmos que fazem com que o produto português nesta matéria seja normalmente desprezível.

Para fechar o círculo, volto a dizer que todo este universo tem que ser aprendido. Com exame de admissão à entrada dos espectáculos. Caso contrário, a ignorância que apontamos aos norte-americanos por não saberem onde fica metade dos países do mundo é em tudo semelhante àquela de não saber que raio de música é esta que o século XXI parece atirar para a linha da frente do sucesso comercial. Haja esperança. Ao intervalo, quanto tocava música ambiente, muitas vozes foram ouvidas a entoar a frase "Out in the street they call it murder", que Damian Marley incluiu no seu propalado "Welcome to Jamrock". Damian Marley, esclareça-se, está muito mais próximo da verdade do que Matisyahu.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

20 junho 2006

Auto-promoçao

Big up to Tiago Machado, the man with the pen.

Poster

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

14 junho 2006

Vida dura, vida chata...

Estalagem Ponta do Sol

Se me permitis, até domingo estarei por aqui, pairando no espaço que a fotografia documenta. É na Madeira.

Qualquer coisa que seja precisa, "please do not disturb". Depois, se estiver para aí virado, conto como foi. Digo já que levo uma quantidade assinalável de discos para um set jamaicano neste pôr-do-sol junto à piscina.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

12 junho 2006

Intervalo

Can't Stop Won't Stop

Pausa.
Para acompanhar o Mundial de futebol.
Para regressar à saudosa actividade de coleccionar cromos.
Para ver e ajudar a renascer o Fremitus, no Bairro Alto.
Para pensar na glorificação da mediocridade profissional.
Para relativizar amizades.
Para envolver-me em projectos de gente apaixonada.
Para ouvir música, muita música, e deglutir o álbum de Thom Yorke a solo com a convicção de que é infinitamente melhor do que os últimos 93 dos Radiohead.
Para devorar o sublime "Can't Stop Won't Stop: A History of the Hip-Hop Generation", de Jeff Chang.
Para sentir que quase tudo é melhor do que o aqui e o agora.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

05 junho 2006

Rock in Rio (Douro)

GNR

Acabou há pouco o único concerto do Rock in Rio Lisboa que vi do princípio ao fim e com um prazer inesperado. Obviamente, vi-o num aparelho de ecrã quadrado. Refiro-me ao concerto dos GNR, o último dos que decorreram no palco principal do festival.

Não era do domínio público que era "o" concerto dos 25 anos dos GNR, mas Jorge Romão, para mim de forma vagamente exagerada e moderadamente tola, fez por lembrá-lo várias vezes em alocuções à assistência de que não há memória noutras ocasiões. De qualquer maneira, Romão sai mais do que perdoado porque a ele lhe pertenceu um dos momentos mais bem sonantes do espectáculo, quando numa espécie de passagem para "Sub-16" trocou o baixo pelo berimbau. Mas que se saiba, então, que era "o" concerto dos 25 anos.

E foi uma coisa bem feita, para muitos curta mas do tamanho das coisas pop. Foi, como seria normal esperar, um voo picado sobre alguns dos pontos assinaláveis musical e comercialmente dos tais 25 anos. Não faltaram as proverbiais "Dunas", "Pronúncia do Norte" ou "Efectivamente", mas o final com o vetusto "Piloto Automático" deu um toque de requinte especialíssico. Como se fosse uma declaração de princípios, como se no livro de intenções estivesse a de dar uma punchline irónica a um concerto previsivelmente festivo em modo "best of".

Mesmo com Toli César Machado na guitarra, como que a materialização do segredado domínio que sempre exerceu no grupo, a coisa aguentou-se muitíssimo bem e, ao contrário do que aconteceu noutras ocasiões, soou tudo menos acacrónica. Rui Reininho, cuja idade não significa o amadurecimento da actividade de cantar (que não é o mesmo que ter boa voz), esteve no ponto que dele se pretenderá nesta altura. Nada titubeante, perfeitamente senhor do seu papel "envelhecido" e eternamente jocoso.

Começou o espectáculo de fato propositadamente desalinhado e chapéu que não deixaria de remeter para uns Madness (certamente resultado do imaginário mafioso que se encontra na revisão que os Guardiões do Subsolo fizeram de "Popless"). Aí confesso que o achei muito bem parecido, diria mesmo charmoso. E é aí que oiço: "Sabes porque é que achas que ele está com pinta? Porque está estilo Morrissey". Durante uns minutos achei que não havia relação entre as coisas. Mas agora já não tenho a certeza.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

02 junho 2006

Lisboa, Tejo e Kuduro

Kuduro

A humildade é uma coisa muito jeitosa. Informo o estimado leitor que, nesse departamento, o signatário da prosa é bastante jeitoso. Não tem quaisquer problemas em aprender, mesmo quando essa aprendizagem coincide com a demonstração cabal da ignorância face a uma qualquer realidade.

Hoje à tarde aprendi que me fartei. Ali em Campo de Ourique, em Lisboa, estive na Enchufada à conversa com o Buraka Som Sistema. No caso, com Kalaf, Condutor, Lil' John e Riot. E porra, as coisas que yours truly não sabia, não conhecia, não imaginava.

O Buraka Som Sistema tem sido em certas circunstãncias colado eo rótulo nu-kuduro, designação que nos mereceu uma boa meia-hora de acesa troca de pontos de vista. Nu-kuduro, para os protagonistas da coisa, é uma designação no limiar da barbaridade. Aproveitando uma designação apresentada no Público, alinham mais por uma coisa como "kuduro progressivo", entre outros rótulos absolutamente hilariantes.

Se em Portugal estão orgulhosamente sós na revisão do kuduro pela via de aplicações electrónicas diversas, o que sabem do que em Angola (Luanda, em particular) se vai fazendo num universo semelhante não só impressiona como provoca alguma inveja. Isto de um gajo querer saber tudo sobre tudo dá umas azias relacionadas com a impossibilidade de cumprimento da tarefa...

Que se registe que não há-de tardar muito para que o primeiro registo do Buraka Som Sistema, em vinil de sete polegadas, está praticamente na rua, seguindo-se daqui a não muito tempo um primeiro EP em que constam temas como os já incontornáveis "Ya!" e "Com Respeito". Enquanto o pau vai e vem, experimente o leitor deslocar-se a 12 de Junho ali ao Adamastor, em Lisboa, para assistir a nova edição do Popular Soundclash. Eles vão lá estar. Eles e mais um porradão de gente particularmente interessante.

Entretanto, e para quem não dá muita atenção à barra aqui à direita, visite-se a habitação do Buraka Som Sistema no MySpace. Se encontrar um comentário de DJ /Rupture a louvar a música e a pedir temas, não se espante. É mesmo verdade. O kuduro do Buraka Som Sistema já toca em Londres. Depois digo mais qualquer coisa na edição #3 da SLANG, relativa a Julho e Agosto,

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

31 maio 2006

1 Pouco Mouco @ SLANG #2

Slang #2_Capa

TRÊS LUTHIERS E UM DESTINO
Se um desconhecido lhe disser que a vida futura da guitarra portuguesa está nas mãos de um MC de hip hop, de uma DJ de reggae e de um gajo perfeitamente normal, acredite. Tony, Fabíola e Hugo andam entre os 28 e os 31 anos, mas a SLANG apanhou-os escassos dias depois da criação da sua empresa, a AIMC. Gilberto Grácio, de quem “apenas” saem e saíram guitarras para gente como Carlos Paredes, continua a acompanhar o trio, mas agora estão financeiramente por sua conta.
(...)

O PECADO DA PARTILHA
Aquela proverbial máxima, que diz que “aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes” está difícil de ver aplicação no universo da indústria do entretenimento, seja ele da música ou do cinema. O que não parece claro é que a internet serve para partilhar mais do que discos ou filmes pirateados. Serve também para partilhar cultura de outra forma enclausurada em determinados espaços geográficos. Mas que a citada indústria não está mais forte por causa da internet, lá isso não está.
(...)

O resto das prosas, e todo um fascinante universo urbano de luz e cor pode já ser encontrado nas lojas na segunda edição da revista SLANG.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

12

12

Para muitos seres vivos, o signatário incluído, as datas são uma coisa socialmente terrível. São, além da face mais evidente de uma falta de memória dirigida a momentos isolados, recorrente motivo de embaraço diante de outros seres vivos, aqueles para quem as datas são coisa fácil de digerir e armazenar.

A própria relevância e hierarquização das datas merecia uma cimeira de dimensão internacional para o apaziguamento das relações interpessoais. Isto porque, ocorreu-me que, hoje, 31 de Maio, é uma data especialmente importante para mim. E, pelas razões pelas quais o é, é mesmo só para mim.

Faz hoje uma dúzia de anos que entrei pela primeira vez na redacção do finado Blitz para trabalhar, para ser redactor, para cumprir o poético desejo de ser jornalista e, para mais, sê-lo num departamento que até hoje me entusiasma, precisamente a música.

Tenho este dia como o do princípio do meu trajecto. Não conta muito o que antes havia feito, desde cuidar de arquivo de seguros ao terrorismo sónico praticado num núcleo de rádio universitário. Foi ali, então para Cabo Ruivo, que cheguei num Citröen 2CV encarnado para ajudar a fazer o número 501 do jornal.

Nenhuma outra data ficou profissionalmente registada na memória como esta. Nem o início da On, n'O Independente, nem o parto do Netparque, na Expo, nem o regresso ao Blitz. Nada tem o peso daquela primeira vez, da ocupação do espaço deixado vazio pelo Nuno Galopim, que entretanto havia debandado para o Diário de Notícias. Enquanto o "seu" computador durou, mantive o inevitável autocolante dos Duran Duran que ele lá havia colocado. Para mim, era como atingir um nível de importância semelhante ao homem que substituia e aquele autocolante lembrava-se desse facto. Na altura, naturalmente, era pouco mais do que um puto charila que sabia escrever e que, assim de rajada, tratou de alinhavar a antecipação de um concerto de Nick Cave no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Quando hoje olho para a actividade que então iniciei e nela vejo uma meretriz manhosa, ocorre-me a dúvida: estaria hoje melhor se tivesse continuado a arquivar seguros?

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

Quiz

GNR

Esta semana chega com atraso relativo o rescaldo da mais recente participação do colectivo TV Rural no Quiz semanal do Espaço Portela. Mas chega. O que não chega, na realidade, é o quarto lugar atingido na classificação final. Não faz justiça ao já histórico combo, mas resultará em boa parte de uma instabilidade de balneário que se traduz em presenças e ausências imprevisíveis. É a irresponsabilidade, gentil leitor, é a irresponsabilidade. E quem mais, se não o titânico Clube da Latrina, para atingir um insuperável número de 43 respostas correctas a 50 perguntas? Teríamos, na ocasião, que usar telemóveis, um computador portátil com ligação wireless à internet e uma central nuclear para atingir semelhante feito. Mas não, humildemente penamos à espera que a glória nos reencontre. Que bom seria, na segunda-feira à noite, sabermos de caras o nome por que é conhecido o líder do 1º Comando da Capital que tem virado a cidade de São Paulo do avesso, quem era o sacana que, diz a mitologia, comandou as tropas de Tróia contra os gregos e que equipa ganhou esta época o campeonato nacional de rugby. Se na música o grau de acertividade tivesse sido inferior a 100 por cento, provavelmente estaria agora a escrever isto pintado de roxo. Era tudo, digamos, bastante fácil. Além de enunciar o nome dos Beatles que acompanhavam John Lennon e Paul McCartney, foi apenas uma questão de identificar canções assinadas pelos Peste & Sida, Whitesnake, GNR (na foto) e Paco Bandeira. O pior é que, com o Mundial a começar, tão cedo não haverá possibilidade de voltar a atacar o cume da tabela. Pelo menos o quatro é um número muito bonito. Digo eu.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

28 maio 2006

Aguas de Maio

Guns N' Roses

Os juízos precipitados podem ser uma coisa muito desagradável. Felizmente, no caso dos Guns N' Roses, indissociáveis do telenovelesco silêncio editorial a que se têm dedicado, precipitação é factor que não se aplica.

Vem isto a propósito do Rock in Rio Lisboa, que está para ali a acontecer na televisão e, ao que parece, num espaço vagamente parecido com um parque de diversões musicado. De passagem pela SIC Radical, um Axl Rose em fase pré-reforma anuncia que vai sentar-se ao piano. O que já de si é preocupante torna-se particularmente grave quando começa a interpretar o, digamos, clássico "November Rain". O que faz pior é difícil de distinguir, se cantar, se assentar os dedos sobre as teclas. O piano soa mal como dificilmente se ouve onde quer que seja e a voz da criatura não coloca mais do que duas ou três notas no lugar certo ao longo de alguns minutos. Medonho. Como medonho é, um nadinha mais à frente, a estridente interpretação do, digamos, clássico "You Could Be Mine", agora já com todos os instrumentos e respectivos tiques de um grupo de rock'n'roll absolutamente anacrónico. E "Patience", outro, digamos, clássico, soa como soa uma banda treinada que ensaia pela primeira vez com um cantor.

A entremear a coisa, os meus camaradas Diogo Beja e Nuno Calado vão explicando que o novo (inserir gargalhada aqui) álbum, Chinese Democracy, não pode ser objecto de transmissão, daí os pontuais intervalos. Não há qualquer problema, qualquer drama, qualquer ansiedade. Depois de ouvido o que fizeram em Lisboa neste mês de Maio de 2006, as tristes cenas passadas há mais de uma década no antigo Estádio de Alvalade tomam agora contornos premonitórios. E uma vida completa o seu círculo.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

23 maio 2006

Quiz

Body Rockers

Aqui há uns anos, não sei bem quantos por causa dos drunfos, disseram-me que era gajo para padecer de umas maleitas modernaças, tipo crises de pânico e ansiedade. As duas, porque parece que não são uma e a mesma coisa. Ora isto não é nada simpático. A sério, transforma a vida de um gajo, constrói medos nas condições mais improváveis e que antes implicavam prazer, entre diversas outras coisas pouco agradáveis. Por essas e por outras é que tenho tido algum cuidado com as emoções. Ou seja, da mesma forma que tento abstrair-me da identidade do novo treinador do Benfica, também há muito que decidi que não saltaria para o chão de algo mais alto do que um escadote dos pequenitos. Quis, infelizmente, o Quiz desta semana do Espaço Portela que eu e o combo TV Rural experimentássemos um misto de bungee jumping e queda livre. Aquilo que de positivo retiro da experiência é que, nestas circunstâncias, fico muito mais irritado do que ansioso. Devem ser bons, os comprimidos. Na prática, caímos do primeiro para o sexto lugar. Assim, sem espinhas, sem dúvidas e sem discussões. E a uma distância invejável do Clube da Latrina, eternos concorrentes de superiores prestações. Esta segunda-feira, nem a música foi mãe amiga. Começando pelo resto, era bom que soubéssemos em que lugar ficaram as moças portuguesas na edição última da Eurovisão, uma intrincada definição técnica do laser ou o nome da capital do estado brasileiro de Paraíba. Musicalmente, estou em condições de afirmá-lo, foi a pior prestação de sempre, mesmo que a ignorância em certas áreas seja merecedora de uma insígnia de Mérito Estético. Concretamente, sabe Deus que Paulo Gonzo se chama Alberto Ferreira Paulo, quem são a porra dos Body Rockers, que os telemóveis se vendem à custa dos Veils ou que os Whitesnahe e os Def Leppard não são uma e a mesma coisa. Na prática, valeu reconhecer os inenarráveis Live e uma definição muito vaga do meu amado reggae. No entanto, vou dizer à psicóloga que estou muito melhor. Já não sinto pânico, apenas fúria.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

21 maio 2006

Nham nham...

Jackie Mittoo

Os tributos são, regra geral, uma monumental excreção intestinal. Este é, apenas, uma feijoada de choco ao jantar de um dia sem almoço. Um pitéu.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

Eu nao vou

Onde não sou convidado. Não tenho dinheiro para essas coisas.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

Fim-de-semana alucinante

Lordi

As três pessoas e meia que têm por hábito acompanhar os escritos que produzo saberão, por esta altura, que juntar frases na primeira pessoa do singular não é actividade em que sinta particular à vontade. Há, dentro de mim, sempre um feroz guerreiro tresloucado que defende que isso é coisa que não se compatibiliza com a actividade jornalística, que tanto prezo. Mais complicado se torna, portanto, usar a primeira pessoa do singular e falar dessa entidade, do que faz, do que fez, do que pensa, etc. Mas, de repente, ocorre-me que às tantas um blog serve para isso. E daí a partilhar algumas experiências de fim-de-semana é um passito de nada.

Lá pelas duas da manhã de sexta para sábado, e por coincidência cósmica de calendário, estava a ver e ouvir o colectivo Buraka Som Sistema (simpático aportuguesamento da vetusta tradição jamaicana dos sound systems) no Clube Mercado, em Lisboa. Por razões profissionais que mais para o Verão se perceberão, descobrir no próprio dia a ocorrência de semelhante evento não poderia resultar em indiferença ou preguiça. O facto de ter entrada gratuita teve também o seu peso na deslocação, obviamente, uma vez que no momento presente só é possível gravitar num raio de acção de uns cinco euros. Buraka Som Sistema, então.

Bela escolha para um serão. Devidamente acompanhado por um daqueles raros amigos que se disponibilizam a descobrir qualquer coisa que não conhecem, nem o celibato alcoólico impediu que, de um momento para o outro, estivesse yours truly a tentar fazer qualquer coisa de muito distante daquilo que se entende por dançar o kuduro. Porque é disso mesmo que trata o Buraka Som Sistema, de uma bomba atómica energética que, apesar de ainda perfeitamente underground, pode ser sem exagero comparado, como fenómeno, à explosão que nos últimos anos se deu no universo do funk de favela brasileiro. Rude, rudimentar, carnal e vertiginoso. Como diziam os outros, "É som de preto, de favelado/ Mas quando toca ninguém fica parado". É exactamente isto.

Melhor: é isto à excepção da referência ao preto. As tais três pessoas e meia que acompanham as minhas prosas sabem também que praticamente nada me surpreende mais do que quatro ou cinco pontos percentuais. Um desses raros casos deu-se, porém, na noite em questão. Tendo o humilde signatário vivido mais de meio século ao lado da Buraca, louco seria se não fosse ali para a Rua das Taipas na esperança de encontrar uma cave fumarenta, de atmosfera pesada apesar da destilação de prazer carnal, cheia de pretos (elogio). Onde encaixam então os sapatos de vela, os betos e as betas que em boa parte preencheram o espaço é, por isso, coisa cuja explicação me ultrapassa. Mas, tenho a certeza, foi coisa que inibiu um deleite maior. O Buraka Som Sistema, onde é bom ver Kalaf no papel de MC que se limita a debitar frases triviais, ele que para alguns cépticos é um bluff como diseur e intérprete de canções, é uma festa do cacete. Ao lado de Kalaf, discos que trituram kizomba e elementos tecno parcimoniosos e mais duas vozes, uma delas feminina a acompanhar movimentos de manifesta provocação dos sentidos.

Feita a noite, sabia que sábado era dia em que no Hattrick tinha vitória assegurada por falta de comparência do adversário. Mas a noite foi mágica, apesar de tudo. Foi noite de Eurovisão, ou da final do concurso, segundo percebi. Concluí, então, que eu e a Eurovisão estivemos este ano em absoluta sintonia, apesar de o amor que a dita me tem não ser correspondido. Num dia qualquer da semana que passou, numa suposta meia-final em que felizmente Portugal ficou pelo caminho (é assim que prefiro, como já expliquei noutra ocasião), dediquei-me a ver a primeira corrida de touros que reabriu o Campo Pequeno (sim, gosto de tourada) e que a TVI transmitiu. Num momento de fortuna suprema, um curto zapping pôs-me frente-a-frente com um grupo inenarrável que concorria à Eurovisão. Percebi que eram finlandeses, que tocavam um rock que já não se usa desde os Kiss e que, com delícia, ostentavam vestimentas que tanto faziam lembrar Alice Cooper quanto uns inqualificáveis Slipknot. É verdade. Era o Festival da Canção. Achei-lhes um piadão. Mesmo. Para a minha relação com o certame, uma coisa daquelas era o quintessencial sublinhar do ridículo.

Entretanto, sábado à noite. Decorria a tal final. O meu jogo no hattrick já estava acabado (com o proverbial 5-0) e procedia-se à votação very typical do universo Eurovisão, aquela sequência em que gente em cenários Photoshop começa uma alocução com a frase "and these are the results of the (...) juri". Espantosamente, a Finlândia, único país cujos representantes havia visto actuar dias antes, lideravam com largueza e preparavam-se para ganhar a coisa. Fiquei extasiado até ao final, numa frenética urgência de ver aquele aborto musical pseudo-conceptual fazer a intervenção final, receber ramos de flores à boa maneira do black metal nórdico e erguer uma qualquer peça de cristal que normalmente está sempre presente entre os troféus. E assim foi. Fiquei não menos do que maravilhado. Absolutamente maravilhado. Com isso e com Eládio Clímaco, homem com eternas saudades da Eurovisão "á séria" e dos Jogos Sem Fronteiras. Chamava-lhes montros de dois em dois minutos, fazia ironia com as fornadas de 12 pontos que arrecadavam à vez. Uma delícia que teria detestado não ver. Com a Eurovisão e estes concursos de canções definitivamente corrompidos e esventrados com tamanho descaramento, a alegria era difícil de conter. Eládio Clímaco tratou de fazê-la explodir quando contribuiu para o ridículo da coisa ao afirmar, duas vezes em 10 minutos, que para o ano a coisa decorre na Finlândia. Em Reykjavic, disse. Precisamente a capital da Islãndia.

Um domingo de frisbee e playstation com o filhote está a terminar. Com os Globos de Ouro ali de esguelha, que o coração já não dá para tanto absurdo seguido. O que vale a pena registar, no que às coisas que me interessam diz respeito, é que pela primeira vez na História da cerimónia a Impresa se lembrou que tem no seu espólio uma publicação musical, tendo este ano convidado o actual director do/a Blitz para integrar o júri de Música. Não me digam que o mundo não é um lugar maravilhoso...

(Omiti propositadamente o tiro na nuca que levei ao ver Fernando Santos ser apresentado como novo treinador do Glorioso).

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

19 maio 2006

Actividade socio-cultural do dia

Buraka Som Sistema

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

17 maio 2006

A final

Arsenal

Já conheço a história de trás para a frente. "O Arsenal? ****-se!", "Que equipa de *****" e "Não tem hipótese" são frases recorrentes nas últimas semanas.

Against all odds, e como sempre, quero o Arsenal no topo de mundo. Hoje, na final da Liga dos Campeões entram a perder por 10-0, a avaliar pela confiança dos infiéis. É-me indiferente.

Come on, you gunners!

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

"And her hearing aid started to melt..." Vol. XV

Sonotone do dia:

Matisyahu

Matisyahu: Youth (Março 2006)

Veredicto:

Só para o improvável caso de o gentil leitor não ter dado por isso, a Globalização já existe. Tem coisas porreiras, tem coisas desagradáveis e tem coisas estranhas. Ou seja, é uma espécie de cocaína geográfica e cultural. Ora é precisamente essa Globalização que faz com que, a 22 de Junho, possa o cidadão português ver um espectáculo de Matisyahu no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Incluindo-o no raciocínio, Matisyahu é uma das coisas estranhas da Globalização, para não dizer da Civilização. A diplomacia far-me-ia dizer a coisa de outra maneira, mas a economia de espaço obriga-me a dizer, sucintamente, que Matisyahu é um praticante judeu norte-americano que escolheu, vamos lá, uma forma maioritariamente jamaicana para exprimir-se - o roots reggae, o dancehall, o ska ou um pedacinho de cada um. A revista Esquire (que não deixa de não constituir exemplo para ninguém) chamou-lhe "o mais misterioso artista do reggae do mundo". Tem razão. E, no meio disto tudo, Matisyahu soa mais aos meus preciosos Sublime infectados pelos piores tiques do rock à conta de convictas facadas infligidas por Sizzla do que a uma coisa, digamos, jamaicana. É conferir, sobretudo, o álbum Live at Stubbs, do ano passado (certamente um dos poucos discos ao vivo que aqui mencionarei; detesto-os). Bom, Youth é o segundo álbum de estúdio de Matisyahu e, logo para começar, é em boa parte produzido por Bill Laswell, o homem que tanto é capaz de produzir um dub de fino recorte como de assassinar as canções de Bob Marley. E é um disco que anda perfeitamente entre aquilo que para aqui estou a escrever. O problema é que Life at Stubb's, mesmo sendo "ao vivo", continua a soar muito melhor do que Youth, que, lá para meio, começa a fabricar viscosidade. Mas dizer que Matisyahu é uma coisinha má é exagerado. Não é uma coisinha má. Também no rock cristão não há-de ser tudo uma trampa, suponho. Matusyahu é um jovem de 26 anos, bem intencionado e que sabe fazer a sua coisa, que é apropriar-se do património jamaicano para emitir mensagens de paz e amor e essas coisas. Isso é, digamos, bom. Mas como quem não é purista em relação à música jamaicana não a ama verdadeiramente, há por Youth elementos que Lee "Scratch" Perry dispensaria sem hesitar. Realmente a sério, Matisyahu é um gajo para descobrir. Para ficar a conhecer em parte, pelo menos, já que o retrato completo não se lhe tira com facilidade. E atente o estimalo leitor que no dia 22 de Junho a coisa não deve ser nada má no Coliseu dos Recreios, se conseguir hibernar numa abstracção em relação à "geração Gentleman". 69,3% de satisfação garantida.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

16 maio 2006

Segredo

Fátima

Uma das piores coisas que pode acontecer é a um blogger é sentir a obrigação de andar atento a tudo o que o rodeia para assim encontrar uma justificação para mitigar o sentimento de culpa derivado do facto de andar sem escrever. Pois a mim já me aconteceu. Fica esclarecido. Não sei se foi essa patologia que aqui me fez regressar com tanta brevidade, mas a possiblidade existe.

Estava ali a ver o "Levanta-te e Ri", sempre naquela esperança dolente de encontrar um novo Bruno Nogueira, e estava o Carlos Moura (digo "o" porque, confesso, tenho uma relação relativamente estável com o programa) a falar do passado 13 de Maio, feriado, Fátima, aparição, etc. O patuá envolvia, naturalmente, umas palavras dedicadas às lojas de souvenirs que dão colorido à paisagem de Fátima. E aí, como descrente, lembrei-me de uma ida familiar a Fátima que envolveu passagem por uma dessas santas fileiras comerciais. Depois, lembrei-me que havia uma ligação qualquer entre a minha descrença e aquilo que lá fiz quando era puto e não sabia patavina sobre ironia.

O único objecto com a imagem de Fátima que alguma vez foi meu foi-me oferecido dessa vez e era um canivete de tamanho nada desprezível e com duas lâminas que cortavam de facto.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

Quiz

Falco

(Regressando às desculpas vagamente verdadeiras enunciadas há exactamente uma semana para justificar alguma negligência intelectual neste espaço por parte de quem o assina, devo esclarecer que devem existir novidades a apresentar em breve. Ou podem, vá lá, aqui surgir novidades. Depende um pouco da votade. Quer dizer, depende também do tempo e da ausência dele, mas é lógico que aqui têm que estar pérolas como as minhas seminais think pieces, as análises críticas denominadas And Her Hearing Aid Started to Melt. Mas há mais coisas, acho eu. Há coisas boas para aqui colocar, parece-me. Por exemplo, eu estaria, caso fosse o gentil leitor, atento ao que dentro de pouco tempo começará a passar-se no antigo bar Fremitu's, no Bairro Alto, em Lisboa. Quem avisa...)

Estabilizado o já histórico porém discreto combo intelectual TV Rural com uma formação idêntica durante duas semanas consecutivas, o resultado de mais uma presença no Quiz semanal do Espaço Portela voltou a ser uma aventura abrilhantada pela mais elementar justiça. O que significa, mais exactamente, que ganhámos aquilo. Apesar de partilhado com o também valoroso Clube da Latrina, o triunfo do TV Rural recoloca a verdade desportiva no local de onde a dita não devia ter saído. Com vantagem respeitável sobre os segundos classificados, como é desejável, com sabedoria galopante aplicada a diversas áreas do conhecimento, como deve ser. Uma categoria e um primor. A coisa poderia ter sido melhor se, para que hoje tivesse mais dinheiro para gasóleo por via de um não-ex-aequo, se tivéssemos respondido acertamente a questões que se prendiam como um designação científica de algo que nem me recordo habitualmente de possuir, a vesícula; o nome de uma porra de um fenómeno luminoso que acontece lá para o Sol Poente; ou quantas vacas pintadas estão exactamente espalhadas por várias partes de Lisboa (evitar o pensamento fácil e genital). No capítulo musical, pode dizer-se que o pleno foi semi-atingido. Se é certo que ninguém fazia orgulhosamente ideia do nome do mais recente disco de Paulo de Carvalho, supostamente dedicado aos seus êxitos, não deixámos de com soberba demonstrar conhecer o nome das Nonstop quando se quer saber quem representará Portugal naquilo da Eurovisão este ano. No que à música tocada diz respeito, saíram com relativa tranquilidade as respostas alusivas à identificação de Eve, do finado Falco, de Manuel Freire (cuja "Pedra Filosofal" ainda valeu a este subscritor um delicioso Ice Tea Green como resultado de uma aposta) e dos sempiternos Stereo MC's. O Engº Sousa Veloso, de quem ninguém sabe há meses, diz que sem ele nunca triunfávamos. O Engº Sousa Veloso está suspenso da equipa.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

09 maio 2006

Quiz

Opus

A gentil audiência perdoará, ou não (na realidade, é-me indiferente) algumas ausências prolongadas no que à escrita para este espaço diz respeito. É que, como sabe o condescendente leitor, há na vida por vezes elementos muito mais importantes do que a urgência de alimentar um blog. Refiro-me, por exemplo, a mimar quem nos é verdadeiramente querido, a juntar palavras cujo resultado normalmente proporciona retorno financeiro, a lidar com imbecis poderosos ou a contar amigos que desaparecem quando são procurados. Depois há, claro, as tradições, como voltar a casa e falar do regresso às pontualmente interrompidas sessões semanais do Quiz do Espaço Portela. Para um regresso, a coisa não correu mal. Em forma a melhorar, sem o Engº Sousa Veloso mas com uma presença feminina que me é particularmente cara, o combo intelectual TV Rural arrancou um mais do que honroso segundo lugar. Que soube bem, tendo em conta que o primeiro ficou a quatro respostas certas de diferença e só um milagre faria com que tiros de sorte valessem o cume do pódio. Entre os quatro conhecimentos necessários à vitória (cinco se quiséssemos erguer o troféu sem concorrência), constavam: conhecer uma porra de uma definição científica para a maleita do milénio, a celulite; qual o símbolo químico do mercúrio; ou o nome por que ficou conhecido o maior massacre da Guerra Colonial. Em matéria puramente musical, faltou chegar ao nome dos Big Mountain (falha pela qual penarei longas semanas), uma vez que o resto dizia respeito aos seminais austríacos Opus (ironia) e à eterna dupla composta por John Travolta e Olivia Newton-John. Não perca o estimado leitor a esperança de aqui ir encontrando novidades, que eu também não a perco.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

03 maio 2006

O/A Blitz, agora por quem sabe o que diz

Só agora o li, mas em boa hora o fiz. Jorge Manuel Lopes, quem mais?, disserta sobre o passamento e anunciada ressurreição no valiosíssimo A Vítima Respira?.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

02 maio 2006

Impalados Vol. MCCXXXLVIII

Impala

Não sendo novidade, a prática destas bizarrias não deixa de merecer divulgação em massa. Há sempre a esperança de que alguém exija um comprovativo de sanidade mental ao cavalheiro.

Noticia hoje a Meios & Publicidade:

'O Sindicato de Jornalistas (SJ) emitiu um comunicado onde denuncia que o “patrão da Impala ofende directores”. Segundo o SJ, Jacques Rodrigues terá enviado uma comunicação interna com o intuito de transformar “os directores das suas publicações em controladores de saída dos jornalistas”.

Esta norma, que terá entrado em vigor a 27 de Março, “impõe que os directores preencham um documento de autorização de saída do edifício Impala”. Para o SJ o “Documento de saída do Edifício Impala”, que implica ainda a explicação do “motivo de saída”, constitui “uma violação grosseira da reserva do trabalho jornalístico e até uma humilhação dos directores e dos jornalistas”.

O Sindicato acusa ainda Jacques Rodrigues de agir “como se não fosse possível acontecer nas suas redacções o que acontece em qualquer redacção”. No mesmo documento, o SJ “expressa a sua solidariedade para com os jornalistas da Impala e apela para que se reorganizem na defesa dos seus direitos”'.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

26 abril 2006

Onanismo mental

Narciso

O autor deste humilde blog não é, nem em público nem em privado, especialmente dado a momentos de auto-contemplação. Tem-nos muito raramente, quando uma qualquer combinação astral, aliada a um momento específico da tabela de marés, faz crescer no Burundi pimentos azuis. Ontem, além de ter sido 25 de Abril, de Cavaco Silva ter tido a coerência de não usar um cravo vermelho e de ter feito um discurso conceptualmente socialista, deu-se um desses milagres de auto-contemplação.

Foram diversos os órgãos de informação que, na segunda-feira, com inteira justiça mas quase insuperável surpresa (minha) investiram tempo e espaço a discorrer sobre o assunto do post anterior, o passamento do Blitz e a génese da Blitz. Por um acaso igual a muitos outros acasos, passei ontem os olhos pelo Diário de Notícias dessa segunda-feira, 24 de Abril, por sorte ainda viçoso, não amarelado. Para, na secção Media, encontrar uma página inteira dedicada à morte e ressurreição anunciada do e da Blitz. A prosa é assinada por Ana Pago. Felizmente. Porque, diz-me a memória, não a conheço.

Além de um texto principal que, com base em declarações do actual director do congelado, retrata com assinalável rigor e síntese o processo de reestruturação em curso, encontra-se ainda uma caixa que esmiuça a edição especial de 20 anos do finado jornal, três sucintas declarações de gente ligada à música sobre o dito e um resumo cronológico de 21 anos (e não 22, como se tem dito e escrito) de publicação semanal de um manancial de música e cultura jovem. E é aí, nos três apêndices da prosa principal, que encontro razões para alimentar um certo orgulho. Desculpai o leitor, mas é a imaculada verdade.

Sem aqui reproduzir o conteúdo da caixa titulada "A edição especial que celebrou 20 anos do jornal", assimilo o prazer de ter sido o director que inscreveu então o seu nome na capa da publicação. Numa das declarações recolhidas, Zé Pedro, músico dos Xutos & Pontapés que aviso ser dos amigos com que 12 anos de trabalho me presentearam, tem ao lado da sua fotografia o seguinte excerto: "O músico sublinha o trabalho desenvolvido sob a direcção de Pedro Gonçalves, que teve a ideia de lançar os primeiros discos com o jornal. 'Uma novidade'". Na tal tabela cronológica, por seu turno, há uma entrada dedicada ao ano de 2003 que assim reza: "Pedro Gonçalves assume a direcção do jornal, dando início a uma etapa carregada de novidades e ideias na história da publicação". Assim de repente, num feriado solarengo, apanho com isto e penso que Cavaco Silva, se actualmente ler jornais, condecorar-me-á num destes dias.

Depois, ao fazer contas de cabeça, perco por completo o Norte ao sentido que tudo isto tem. Se a lógica ainda tiver alguma lógica, tenho alguma dificuldade em perceber por que razão espera desde Agosto de 2005, após breve passagem por uma multinacional de mercearias culturais, o visado no parágrafo anterior (eu, yours truly) pela gentileza da Segurança Social para assegurar sustento através do benemérito Subsídio de Desemprego. Há que amar um país assim, idiossincrático e bizarrro, quando os que nos rodeiam estão há muito normalizados.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

24 abril 2006

1984-2006

O semanário Blitz morreu oficialmente hoje, conforme previamente anunciado. Como ex-director e herdeiro de uma forma única de fazer jornalismo cultural, não posso deixar de considerar este um dia triste, o dia em que a ausência começa.

Respondida que está a secular questão - "Quem um dia será/serão os coveiros do Blitz?" -, permanece apenas a dúvida sobre a capacidade dos ditos em erguer o ambicioso projecto de revista mensal. É que nunca se sabe, como aconteceu com este humilde servente, quando aparece alguém "topo-de-gama" a sugerir que se faça incluir algo como os "Ídolos" na publicação.

Que o Blitz descanse em paz.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

23 abril 2006

Assim riem-se todos...

Jorge Lima Barreto

O jornal 24 Horas está, como se sabe, permanentemente na vanguarda da comunicação escrita para gente nada exigente. Como estão pasquins do género sediados no epicentro da imoralidade jornalística, as terras conhecidas como Reino Unido. Vai daí, nunca o 24 Horas deixaria passar a oportunidade de juntar uma revista colorida às numerosas que já poluem as bancas há alguns anos. Não é de hoje, mas o 24 Horas ao sábado é uma coisa especialíssima, muito pouco de jornal e tudo de revista descartável (e nem necessário é citar rubricas como as assinadas por Belas & Perigosas ou Carlos Dias da Silva).

Esta prosa tem origem no 24 Horas, mas não se lhe dedica. Vem a propósito do editorial, a que chamam "Notas Ligeiras" (que também diz muito sobre a publicação), que esta semana o director Jorge (perdão, Pedro) Tadeu escreveu para fazer um mea culpa com 20 anos de atraso em relação a uma entrevista realizada a Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, mas sobretudo a Jorge Lima Barreto. Diz Tadeu que, ao publicar a entrevista, chamou sistematicamente "steak" (bife) e não "stick" (pau) a um instrumento novo que Vítor Rua andaria a experimentar. Desculpável, quando nos lembramos de casos como uns tais Very Light fazerem a primeira parte de um concerto dos GNR ou as "bass lines" traduzidas por "linhas de base". Ainda que não se perceba o acto de contricção de Jorge (perdão, Pedro) Tadeu (o tema de capa são as maiores broncas na televisão, talvez seja essa a ligação...), não é grave.

O que é curioso é que, a dada altura, escreve Jorge (perdão, Pedro) Tadeu: "Com Jorge Lima Barreto não se pode ter uma conversa simples e desapaixonada. O fulano é uma inteligência superior e cultiva o estatuto de provocador profissional. Virou-se para o ignorante jornalista e fuzilou-o com uma conversa enciclopédica sobre música minimal repetitiva, música mimética, música concreta, música funcional, música totalmente improvisada, música electro-acústica, eu sei lá!...". Descontado o facto de crer este vosso servente não ser possível manter com Jorge Lima Barreto uma conversa de todo, Jorge (perdão, Pedro) Tadeu não podia descrever melhor a personalidade que lhe havia tocado em sorte. A camaradagem profissional faz-me, no entanto, tirar o director do 24 Horas deste estado miserável de auto-compaixão e explicar-lhe que também Jorge Lima Barreto dá as suas "broncas". Algumas bem boas, daquelas que se mastigam com insuperável intensidade.

Há uns anos consideráveis, eu próprio fui alvo da fúria enciclopédica de Jorge Lima Barreto e também por via de um trabalho jornalístico que me mandaram fazer para o Blitz. Actuaram em Lisboa os Grandmothers of Invention, a já vetusta banda que outrora acompanhara Frank Zappa. Um espectáculo dos utentes de um lar de idosos não teria sido muito diferente, não fosse a presença do falecido Gonçalves (performer espontâneo dos Irmãos Catita), e era suporto sair dali com uma reportagem. Foi o que fiz, escrevendo no final da dita que não tinha qualquer interesse em ouvir os discos de Frank Zappa. Foi o suficiente. Jorge Lima Barreto, presente no concerto como espectador, não quis acreditar em semelhante despautério e escreveu ao então director do Blitz, Rui Monteiro, dando conta da minha imbecilidade, por outras palavras. Na missiva, entre elocubrações sem muito interesse para o cidadão comum, aprendi mesmo uma palavra: plumitivo. Cheguei a pensar ser insulto grave, até consultar o dicionário. Fazei o mesmo.

Obviamente, Jorge Lima Barreto passou a ocupar um lugar especial no meu coração, homem de figadal reacção ao facto de um jovem plumitivo não querer, e assumi-lo com arrogância, chegar sequer perto da música de Frank Zappa. Afinal, a criação e o consumo musicais são mais viscerais do que cerebrais, pelo menos vistos daqui. Isso é bom, é humano, é até contrário à mecanização das "leis do mercado". Este limbo intelectual e enciclopédico de Jorge Lima Barreto desvaneceu-se diante de mim alguns anos depois, para alegria do agora confessado Jorge (perdão, Pedro) Tadeu.

Avisado da capacidade de Barreto para escrever livros como Musa Lusa, quis a dada altura conhecer uma obra de nome B-Boy, em que, como o próprio nome indica, se traçava vagamente uma história da cultura hip hop. Numa estada no Porto, visitei a loja Valentim de Carvalho do Shopping Cidade do Porto, onde trabalhava um amigo, músico português dedicado à electrónica. Entre diversas outras coisas, perguntei-lhe pelo citado B-Boy, cujo paradeiro me foi apontado prontamente apontado. Perguntei-lhe, em tom irónico por não ter o hábito de tomar semelhante iniciativa, se um livro com uma capa tão hedionda não daria direito a desconto na caixa. A resposta foi um post-it colado na capa com uma mensagem para a menina à saída: "O portador deste livro de anedotas é jornalista. Fazer o desconto possível".

Quis saber a origem da expressão "livro de anedotas". Disse-me então o músico que ele próprio havia sido visado na obra com uma análise ao seu primeiro álbum. E que Jorge Lima Barreto havia, a esse propósito, assegurado que tinham sido usadas máquinas e instrumentos que nunca passaram pelas mãos do autor do disco. Vim, com a leitura da grotesca adulteração da História da Música ali contida, a deparar-me com preciosidades como a afirmação de que o hip hop havia nascido a partir do tecno e a atribuição do estatuto de DJ a Tricky, que todos conhecemos por ser tudo menos isso. Com o seu saber enciclopédico, reconhecido e aplaudido noutros domínios, Jorge Lima Barreto demonstrou cabalmente quais os resultados de escrever sobre aquilo de que pouco ou nada se sabe.

O que me leva também a recordar o dia em que, em entrevista a David Byrne, lhe questionei se tinha conhecimento e participação na biografia que um jornalista português estava então a escrever a seu respeito. Disse-me que não, que cria ter falado com o jornalista numa conferência de impresa, no máximo, mas que não sabia nada sobre o assunto. Publicada a entrevista, ficou o referido jornalista muito incomodado com a aparente queda da máscara. Novamente, a questão de falar do que não se sabe ou fingir saber-se mais do que o que se sabe. Por estas e outras, camarada Jorge (perdão, Pedro) Tadeu, durma descansado. As barbaridades, ou "broncas", como lhes chama, vêm de todo o lado. Um dia partilho consigo um "best of" das minhas.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

20 abril 2006

Sindicato dos Jornalistas

Por razões diversas, entre elas uma quase epidérmica aversão ao corporativismo, nunca pertenci a qualquer sindicato. Na realidade, só a um poderia com lógica pertencer, mas nem esse, até hoje, libertou em mim a urgência justiceira que com alguma frequência se instala.

Isso não obsta, no entanto, a que reconheça no Sindicato dos Jornalistas ao longo dos anos o mérito de efectivamente trabalhar em prol dos que a ele se associam, mesmo quando as acções desempenhadas possam não parecer mais do que simbólicas. O Sindicato dos Jornalistas, assim parece, está em boa medida muito mais preocupado em preservar valores e códigos veteranos porém prementes do que boa parte da classe que hoje junta letras com a mesma convicção de quem pesa laranjas no Continente.

Por isso mesmo, apetece-me desta vez salientar a rejeição do Sindicato dos Jornalistas em fazer parte dessa sinistra entidade recentemente pensada e que responde(rá) pelo nome de Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). E aplaudir, e colocar-me ao lado de quem não se sente confortável com a presença, sobre os ombros, do ignorante fantasma do controlo. Para isso já bastam, na maior parte dos casos, os fantasmas dos detentores do capital dos meios de comunicação.

Aqui fica o comunicado do sindicado, tornado público há dois dias:

"SJ rejeita lugar no Conselho Consultivo da ERC

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) não ocupará o lugar que lhe cabe no Conselho Consultivo da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) por discordar do modelo legislado para aquele órgão, mas está disponível para prosseguir a cooperação que manteve com a extinta Alta Autoridade para o sector - informa o SJ em nota à imprensa divulgada hoje, 18 de Abril.

Segundo o SJ, no encontro realizado a 12 de Abril a convite do Conselho Regulador da ERC, a Direcção do Sindicato reafirmou as suas críticas quanto à composição e forma de designação dos membros do órgão regulador, e explicou que não aceita participar no Conselho Consultivo por este ser um órgão "efectivamente destituído de funções próprias", cuja composição se encontra "inaceitavelmente desproporcionada", com oito representantes do poder económico, cinco do Estado e apenas um dos jornalistas.

Apesar da posição crítica e da sua intenção de prosseguir a luta por alterações à lei da Entidade Reguladora, o SJ está aberto à discussão conjunta dos problemas do sector, tendo apresentado um conjunto de temas que deverão ser objecto de concretização mais aprofundada nas relações que pretende manter com a ERC.

É o seguinte o texto, na íntegra, do comunicado do SJ:

SJ recebido pelo Conselho Regulador da ERC

A convite do Conselho Regulador, a Direcção do Sindicato dos Jornalistas (SJ) foi recebida, no passado dia 12, por aquele órgão da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

No encontro, o SJ explicou as suas posições sobre a criação da ERC, especialmente quanto à sua composição e à forma de designação dos seus membros.

A Direcção transmitiu a disponibilidade do Sindicato dos Jornalistas para prosseguir, com a ERC, a cooperação que manteve com a extinta Alta Autoridade para a Comunicação Social, na apresentação de casos susceptíveis da sua intervenção e na discussão de problemas do sector.

O SJ está disponível para reuniões bilaterais e para participar em iniciativas da ERC, incluindo reuniões com os restantes parceiros do sector, apesar da sua discordância sobre o modelo de "conselho consultivo" legislado motivo pelo qual o SJ não ocupará o lugar que lhe cabe naquele órgão.

O SJ considera que o Conselho Consultivo criado no âmbito da ERC é um órgão efectivamente destituído de funções próprias e que a sua composição se encontra inaceitavelmente desproporcionada.

De facto, enquanto a lei da ERC atribui à representação dos jornalistas apenas um lugar, consagra a participação directa e indirecta das empresas através de quatro lugares e atribui número idêntico à publicidade, conferindo um peso de oito lugares ao poder económico – três lugares mais do que ao Estado.

O SJ comunicou ao Conselho Regulador que vai continuar a trabalhar no objectivo de alterações à lei da ERC, especialmente quanto à composição e competências do Conselho Consultivo.

No encontro, o SJ apresentou os seus pontos de vista sobre os principais problemas do sector, designadamente:

• Concentração da propriedade dos meios de informação, expressando o receio de que esta venha a agravar-se;

• Desregulação em muitas empresas, com a violação de elementares regras legais e a persistência de fenómenos de precariedade que constrangem a liberdade de expressão;

• Efeitos das novas práticas do marketing e da publicidade na autonomia editorial dos jornalistas;

• Censura económica de que se sentem alvo vários órgãos de informação regional por parte de autarquias locais;

• Direitos de autor dos jornalistas, que fazem parte do anteprojecto de revisão do Estatuto do Jornalista.

Os temas acima enunciados deverão ser objecto de concretização mais aprofundada nas relações que o SJ pretende manter com a ERC.

Lisboa, 18 de Abril de 2006

A Direcção"

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

18 abril 2006

Maio Trinchado Maio

A Naifa_Porto e LX

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"And her hearing aid started to melt..." Vol. XIV

Sonotone do dia:

DFA Remixes Chapter 1

Vários: The DFA Remixes Chapter One (Março 2006)

Veredicto:

Algo que os anos mais recentes me conseguiram fazer temer é toda a criação musical a que se associa o termo electro, surja ele como prefixo, sufixo ou orgulhosamente só, o que é invariavelmente mais assustador. O caso é assim um pouco como o que. lá pela década passada, no domínio da electrónica, surgiu como adjectivo para muitos melómanos: intelligent. São, efectivamente, coisas que assustam, que fazem temer pela saúde colectiva. Curioso se torna, portanto, que a propósito de The DFA Remixes Chapter One brote na gente uma vontade quase irresistível de juntar os dois termos. Resistirei. James Murphy e Tim Goldsworthy, os homens que respondem pela editora de onde este disco vem, misturam com real porém reservada inteligência cânones que vão do disco ao funk, do house ao... erm... electro. E isto com uma inegável sabedoria que advém do simples facto de a dupla conhecer, respeitar e interpretar com pertinência os passos que os géneros citados foram dando ao longo dos anos. Em The DFA Remixes Chapter One compilam-se nove das diversas remisturas assinadas pela DFA nos cinco anos de actividade e que apanham os nada desprezíveis nomes de Le Tigre, Blues Explosion, Chemical Brothers, Soulwax, Radio 4 (provavelmente a única remistura conhecida de "Dance to the Underground" que, em nove minutos, consegue não recorrer ao proverbial refrão), Fisherspooner, Gorillaz, Metro Area e Hot Chip. O que, por isso e pelo ouvido apurado de quem mexeu nos originais, faz com que uma compilação que à partida corria o risco de repetir-se até à náusea funciona afinal em modo festivo sem que os ouvidos se queixem por agressão, bem pelo contrario. 83,1% de satisfação garantida.

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11 abril 2006

Quiz

Manic Street Preachers

Protagonista de uma milionária transferência de última hora para uma equipa concorrente graças à já lendária irregularidade/displicência horária dos elementos que compõem o mítico combo TV Rural, voltou este excelso plumitivo a saborear a glória do triunfo no Quiz semanal organizado no Espaço Portela. Reconhecida pela maioria dos intervenientes como particularmente difícil, a edição desta segunda-feira restitiuiu a este servidor um lugar que, perdoai o leitor, lhe assenta particularmente bem e lhe sabe substancialmente melhor: o primeiro. Sob o título Reservado, o quarteto que integrei ficou duas respostas acima dos concorrentes mais directos e transportou consigo novo triunfal êxito sob cumprimentos generalizados dos demais participantes, É possível que o cenário surja neste momento vagamente empolado, mas a emoção da vitória é por vezes a mãe da inconsciência. No caso concreto, mais alargado teria sido o triunfo se soubesse o colectivo Reservado responder a questões que solicitavam o nome do invólucro de verguinha ou palhinha que protege os vasos de vidro, a capital das Ilhas Salomão ou o nome do arquipélago de ilhas coralinas que, no Índico, se situam a Norte de Moçambique. Mesmo do ponto de vista estritamente musical, o pleno ficou por atingir. Everything But the Girl e Manic Street Preachers foram, como soi dizer-se, limpar o cu a meninos, mas recordar o questionável título do segundo álbum a solo de Tim (Xutos & Pontapés) e identificar uma canção interpretada por uma/uns tal/tais TTO (queira o leitor conferir, que a paciência impede-me de momento de fazê-lo) mostaram-se tarefas impossíveis de cumprir. No fim, feitas as contas e superado o vago suspense, toma lá o primeiro lugar com 32 respostas certas. O dinheiro deu jeito para cacete.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

07 abril 2006

Pedro Gonçalves aka Boldfinger

Slang_Beat Diggin'

Não necessitando no momento presente de fazer novo alarido em torno da novel revista SLANG, talvez deva no entanto esclarecer que o colaborador que por lá consta como Boldfinger é não menos do que yours truly. Adiante.

Vem isto a propósito de um mail que hoje o Rui Miguel Abreu, da Loop Recordings, me enviou. Conforme sabe quem tem a revista, e quem a não tem deveria tê-la, foi o sinistro Boldfinger acompanhar três beat diggers a um inusitado espaço na periferia lisboeta à cata de vinil em segunda mão. Para disso fazer uma reportagem sobre algo que em Portugal permanece como um mistério para muita gente.

Com a sua amável permissão, aqui transcrevo um pedaço do mail:

"Olha, toma lá um artigo do guardian: http://arts.guardian.co.uk/filmandmusic/story/(etc. etc. etc.)

Tu fizeste primeiro!"

Descontado o prazer oriundo da obra parida antes da que pode ser lida numa das raras publicações que merece ser consumida nos dias correntes, vale no entanto a pena deixar aqui, em condições, a ligação para o artigo em causa, em que Dorian Lynskey se dedica à exploração jornalística dessa actividade. Pena é um título como "Rare Grooves" numa língua tão rica como a inglesa, mas mais uma prosa num generalista sobre este distinto labor sabe sempre bem.

Ora aí está: Rare Grooves.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

O que diria Bela Lugosi? "Beware..."

José António Saraiva

Noticia hoje a Meios & Publicidade:

"Semanário de Saraiva nas bancas a 16 de Setembro

Adriano Nobre
07 de Abril de 2006

O primeiro número do novo semanário de José António Saraiva vai chegar às bancas no dia 16 de Setembro. A data foi avançada ao M&P pelo antigo director do Expresso, confirmando-se assim que o novo título irá concorrer directamente nas bancas, aos sábados, com o semanário da Impresa Jornais. A divulgação dos restantes pormenores sobre o projecto (título, estrutura editorial e componente gráfica) foi remetida por Saraiva para a apresentação oficial do jornal, que será feita às agências de meios na semana seguinte à Páscoa.

De acordo com o responsável, definida está também a estrutura accionista que suportará o lançamento do projecto. “As negociações estão fechadas”, garantiu Saraiva ao M&P, escudando-se num “acordo de confidencialidade” para recusar confirmar o nome da entidade bancária e do empresário dos media que se associaram ao projecto. A constituição formal da sociedade está agendada “para finais de Abril”, altura após a qual serão divulgados publicamente os nomes em causa. Fica, desta forma, completo o processo formal de constituição de toda a estrutura inerente ao lançamento deste semanário, depois de no início de Março, conforme noticiou o M&P, ter sido registada a editora Comunicação Essencial Lda. Na escritura de constituição desta editora constam os nomes dos jornalistas que formam o núcleo editorial do projecto: Mário Ramires, José António Saraiva, Vítor Rainho e José António Lima. A estes juntam-se nomes ligados à área financeira como Manuel Reis Boto e António Frutuoso de Melo.

Relativamente à constituição da equipa redactorial para este semanário, Saraiva revelou que “para além do núcleo editorial, ainda ninguém está contratado”. “Só depois da constituição formal da sociedade entraremos no processo de contratações faseadas, não só de jornalistas, mas de todas as áreas necessárias para o jornal”, explicou. Entre estes, deverão ser contratadas “não mais de 15 pessoas” ao Expresso.

Ainda segundo Saraiva, “cerca de 90% da redacção deverá ser formada por jovens jornalistas, na sua maioria recém-licenciados”, aos quais se juntarão “o núcleo fundador e mais alguns jornalistas com maior experiência”. Depois de definidas as contratações dos jornalistas mais jovens, o mês de Junho será preenchido por “cursos de formação que transmitirão à redacção o enquadramento editorial” do projecto."

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

05 abril 2006

Barcelona 2 - 0 Benfica

Barcelona-Benfica

Justíssimo, mais do que óbvio e, ainda assim, uma triste desilusão.

Dito isto:

Obrigado Beto, pela técnica superior no primeiro golo.

Obrigado Petit e Anderson, pelo passe e pela inércia no segundo golo.

Obrigado Simão, pelo altíssimo nível demonstrado na única grande oportunidade.

Obrigado, verdadeiro, aos milhares dos nossos que lá estiveram para mostrar que há muito que somos infinitamente maiores que a equipa pela qual sofremos.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.