05 março 2006

1 Pouco Mouco@Mondo Bizarre #25

Mondo Bizarre #25

Está a chegar às bancas a edição #25 da zine de luxo Mondo Bizarre (pormenores sobre a festa de lançamento no post acima) e foi esta a contribuição d'1 Pouco Mouco para a dita.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

ENTREVISTA

Jel

NOVO JEL SUAVE COM GARANTIA ANTICON

Jeffrey Logan é, muito provavelmente, um nome como outro qualquer. O mesmo já não se passará com Jel, os seus Themselves ou a Anticon, de que é orgulhosamente membro. Em discurso directo, Jel fala disto tudo tendo como mote “Soft Money”, o seu segundo álbum com essa assinatura.

Um dos problemas inerentes ao diálogo ou ao consumo da música de alguém com estreitas ligações à cada vez mais propalada Anticon, editora norte-americana responsável por publicar discos como dos Why?, Themselves, Nosdam, Alias, Sole ou 13+God (colaboração entre os Themselves e os alemães Notwist), é precisamente o peso que a marca pode ter no processo, sobrepondo-se em forma ao conteúdo daquilo que edita. Jel, ou Jeffrey Logan, um dos decanos da Anticon e elemento dos Themselves, ajuda nesta entrevista a colocar cada coisa em seu lugar. Mesmo que os ditos possam soar vagamente baralhados, bem feitas as contas.
“Soft Money” é o segundo álbum de Jel, editado três anos depois de “10 Seconds”. E é um disco que, como se imagina, contém participações de parceiros de editora, não deixando a hegemonia estética de estar concentrada no seu mentor. Jel não se assusta se se lhe chamar um disco de hip hop inteligente, como não se assusta se na sua biografia lhe chamarem o arquitecto do som Anticon. Ao mesmo tempo que garante que está na sua agenda tanto o trabalho com Mike Patton para os Peeping Tom, assegura também novas aventuras do “casal” 13+God, que junta os Themselves aos aventureiros alemães Notwist. “Soft Money” é uma bizarria no universo do hip hop como ele é hoje genericamente conhecido: é elegante, ambicioso, questiona-se despretensiosamente acerca do mundo supérfluo da ostentação e flui elegante entre convidados que dão tons subtis mas coloridos à criação iniciada na vintage caixa rítmica SP-1200, da Emu.


As primeiras palavras “ao vivo” que podem ouvir-se no seu álbum “Soft Money” são “don’t buy this product, you don’t need it” e todo o tema parece deselvolver-se à volta do consumo de coisas supérfluas. Chamaria a isto um “statement”, quando quase todo o hip hop de hoje lida com “bling bling” e ostentação?
É, decididamente, um”statement” dirigido a toda essa parte do filme da indústria discográfica. Pessoas por quem não me interesso. Tenha que ver com dinheiro ou com a venda de automóveis. Isso não tem nada que ver comigo. Há, neste momento, uma quantidade crescente de produtores que licenciam a sua música para publicidade a automóveis, daí ter pensado ser engraçado fazer um tema cujo som fosse como que o de um anti-anúncio de automóveis.

Uma das questões que se destacam quando se fala de si é o seu velho amor pela máquina de ritmos SP-1200, algo que hoje praticamente nenhum produtor utiliza. Continua apaixonado pelo seu som como quando começou a utilizá-la? O que lhe dá ela que não possa ser dado por um qualquer tipo de software?
Sim, continuo a usar muito a SP-1200 no meu trabalho. A maioria das minhas batidas são feitas através dela e depois transferidas para a MPC (o mítico Midi Production Center da Akai, utilizado por numerosos produtores de hip hop). É uma máquina de rítmos realmente física, não está dentro de um computador. Além disso é aquele som… um som de 12-bit com uma resolução bastante baixa. Consegue produzir alguma distorção que outras máquinas de ritmos não conseguem.

A última vez em que, de modo genérico, as pessoas tomaram contacto com o seu trabalho foi através da edição do álbum assinado 13+God, resultado de uma colaboração entre os Themselves (projecto de que Jel faz parte) e os Notwist (alemães amantes do rock experimental). Que efeito teve essa colaboração sobre si, já que não é todos os dias que as pessoas se cruzam com trabalhos conjuntos como esse? Como descreveria essa experiência?
Teve um grande impacto em mim, desde logo por tê-los conhecido. E abriu as nossas próprias perspectivas, com a nossa música a chegar a mais sítios do que as universidades nos Estados Unidos. A maioria das pessoas opta por fazer música depois de uma digressão, por isso há aqui uma grande diferença. Tivemos a oportunidade de trabalhar música por todo o mundo e depois distorcê-la, creio eu, durante o processo. Fico mais atento à música, aprendo ao trabalhar com outros músicos. Foi muito bom trabalhar com os alemães Notwist para variar das pessoas da minha vizinhança.

Como se processou esse trabalho? Enviavam uns aos outros pedaços de música através da internet?
Não foi tanto através da internet, mas através de discos rígidos e discos gravados. Trocámos música, na realidade. Creio que eles nos mandaram cinco temas e nós mandámos-lhes uns cinco ou seis. Trabalhámos assim na música uns dos outros e juntámo-nos na Alemanha, onde finalizámos tudo e onde inclusivamente, em estúdio, criámos mais alguns temas em conjunto.

Tendo falado dos 13+God, não podemos deixar de falar na Anticon, a editora. Vê-a como um daqueles casos em que o nome de uma empresa é por vezes mais importante e influente do que a música que propriamente edita? O que tem a Anticon que gera um fascínio especial em muita gente, uma vez que os discos não são todos iguais?
Tem havido uma tremenda confusão acerca da Anticon, especialmente porque as pessoas, particularmente a imprensa, olham para a editora como um colectivo de artistas. Quando os discos são editados, parecem não ser vistos como vindos de projectos diferentes, mas da Anticon. Não são os Why?, não é o Jel, não são os Themselves ou os 13+God. Muitas das vezes pensam que se trata apenas de mais um disco da Anticon, mas todos os diferentes grupos têm procurado desenvolver o seu som de modo a que tenham o seu próprio estatuto, o seu próprio nome.

Como vê esta abertura estética relacionada com a Anticon? É óbvio que se trata sobretudo de um universo hip hop, mas tanto os Why?, como o próprio Jel ou os 13+God, vêm mudando o seu som. Diria que estão a explorar novos territórios?
Estamos, de uma maneira de outra, a explorar novos territórios dentro de cada um de nós. Não temos uma intenção deliberada de fazê-lo assim, como no caso dos 13+God. Nunca pensámos “vamos fazer um disco com uma banda de rock de radio e torná-la acessível”. Trata-se, sobretudo, de uma procura individual de cada um de nós.

Passam agora três anos desde que editou o primeiro álbum assinado Jel. Quão diferente diria que é este “Soft Money” desse outro, “10 Seconds”, não apenas em termos de resultado final mas também da forma como abordou ambos os discos?
As coisas mudaram muito, decididamente. O que fiz em “10 Seconds” foi como que juntar aquilo que eram “Greenball” e “Greenball 2”, umas colecções de beats que tinha editado. O que tinha em mente para esse álbum não, ainda assim, completamente diferente daquilo que tinha em mente para “Soft Money” – transformar um conjunto de canções inteiras num álbum, num LP, e não apenas num conjunto de beats. Todas as canções de “Soft Money” são aquilo que queria. Queria que tudo fosse muito mais musical, que além da máquina de ritmos pudesse juntar guitarra, teclas, outras pessoas.

Como se dá esse processo de envolvimento de outros artistas da Anticon na música que faz?
Em “Soft Money”, trabalhei com algumas figuras nucleares da editora, como Why?, Doseone (seu companheiro nos Themselves), Pedestrian, Nosdam… Ouvi aquilo que andavam a fazer e achei que podiam envolver-se. Deixei-os escolher as canções, ao invés de levar uma em mente e pedir algo de específico. E em relação a pessoas como (Martin) Dosh e Andrew Broder, mandei-lhes umas quatro canções e eles decidiram tocar em 12, tendo eu depois que fazer uma selecção. Se fosse como eu realmente queria, as pessoas tocariam o que quisessem e eu depois cozinharia tudo em canções.

Sabe, certamente, que muitas pessoas utilizam o adjectivo “inteligente” para descrever alguma música feita sem instrumentos “reais” e fora do circo do rock’n’roll. Diria que é justo chamar a “Soft Money” um disco de hip hop inteligente?
Sim, inteligente é uma palavra que tem tido um entendimento estranho, alguns mal-entendidos… Esta música é mais inteligente do que muita daquela que é editada, no que ao conteúdo diz respeito, às palavras, ao conceito das canções. “Inteligente” é uma palavra muito abrangente, mas este disco é decididamente um disco mais concentrado. Não tem um conceito geral em que várias pessoas falam sobre sistema ou consciência social, não era minha intenção pregar o que quer que fosse. Não tento apenas abordar todo o materialismo ligado à música em geral, não é só isso que faço. Não é minha intenção chegar aos miúdos do liceu que querem esbanjar dinheiro em porcarias. Trata-se mais de estar atento ao que me envolve, aprender a distinguir o certo do errado, tirar partido disso.

Não apenas neste disco, mas ao longo do seu trajecto como produtor, trabalhou com diversas pessoas diferentes, de músicos a cantores. O que é que procura quando convida outras entidades para trabalhar consigo? O que procurava especificamente quando começou a trabalhar para o álbum “Soft Money”?
Quando escolho alguém, como as pessoas que escolhi para trabalhar em “Soft Money”, tenho como certo que toda a gente é capaz de fazer precisamente aquilo que idealizo. Mas quero apenas que toquem juntamente com a música. É uma vantagem conhecer todas estas pessoas e a sua música, pois faz-me sentir confiante acerca dos resultados.

Num comunicado de imprensa a respeito de “Soft Money”, é descrito como “the head architect of Anticon’s aural acropolis”. Como o faz sentir este retrato?
(Risos) Foi o Pedestrian (outro dos artistas ligados à Anticon) quem escreveu essa biografia. Não deixa de ser engraçado ter alguém dentro de casa a escrever a nossa própria biografia, seja Why?, Doseone, Pedestrian… Eles escrevem coisas que me fazem rir, mas transmitir isso aos outros é uma coisa completamente diferente. É algo que não se pede à mãe para escrever, mas ele escreveu-o e ficou assim…

Ele pode exagerar à vontade…
Mas as pessoas agarram-se a isso. E, de alguma forma, sinto alguma relação com esse retrato. Sobretudo, quando isso foi escrito, o que se passava é que eu era o produtor mais bem estabelecido de todos nós, fazia imensas colaborações…

Depois de “Soft Money” ser editado, o que se segue no futuro próximo artístico de Jeffrey Logan?
Há muitas coisas a acontecer. Estou agora a misturar o novo álbum álbum dos Subtle, para sair no Verão, estou a trabalhar com Mike Patton nos Peeping Tom e entretanto tenho estado com o Doseone a fazer algumas programações e gravações de voz para um álbum nosso.

E sobre os 13+God? Vai haver mais discos?
Sim, temos isso em mente. Provavelmente, no final do ano começamos a pensar nisso e eles virão até São Francisco. Como da ultima vez fomos nós lá, pensei em tê-los em São Francisco para o segundo álbum.

Texto: Pedro Gonçalves

CRÍTICAS

Beastie Boys

Beastie Boys
Solid Gold Hits (Capitol/EMI)
Sendo este um “best of” sucinto quando comparado com o duplo e ambicioso “The Sound of Science”, esta compilação dos Beastie Boys acrescenta-lhes à discografia aquele disco que por vezes é desejado ouvir quando se quer ouvir o que é mais familiar. Por outras palavras, este é de facto o disco dos “hits”.
Poderia incomodar, o que perfeitamente se compreenderia, a teor vagamente aleatório da ordem escolhida para o alinhamento, mas a verdade é que os temas todos parecem fluir sem atritos desde “So What’cha Want” a “Fight for Your Right”, respectivamente a abertura e o fecho da emissão do trio nova-iorquino. Talvez seja pouco interessante recordar, nesta altura, a relevância do grupo na História do rap e do hip hop nos Estados Unidos, que se prolonga para lá do facto de se traterem de três “caras pálidas”.
Só quando se pensa verdadeiramente em coisas que ficaram de fora, como o pouco propalado e altamente recomendável álbum instrumental “The In Sound From The Way Out!”, já a caminho dos 10 anos de idade, é que se retira um outro ponto ao somatório de 15 temas (“Body Movin’” na versão remisturada por Fatbot Slim) que, em épocas e contextos totalmente distintos, assumiram indiscutível relevância eventualmente explicada pela Sociologia.
(8) PG

Graham Coxon

Graham Coxon
Love Travels at Illegal Speeds (Parlophone/EMI)
Os Blur foram, queira-se ou não, uma das mais importantes bandas dos últimos 15 anos da música de produção britânica. Embarcados à força na cena então denomidada britpop, foram muito mais longe do que isso. Desistiram, em boa hora, de guerras sociais estéreis. Os Blur tinham no seu guitarrísta e principal pensador musical um músico absolutamente excepcional. Simplesmente, a dada altura fez todo o sentido que lhe começasse a faltar espaço para o que desejava fazer. Que começou por ser, diga-se, uma bizarra reanimação de um certo imaginário Syd Barrett.
Nesta altura já perfeitamente habituado às edições em nove indivivual, Graham Coxon trata de fazer deste Love Travels at Illegal Speeds um perfeito retrato de uma convivência quase impossível entre uma perfeita noção de contemporaneidade exterior e a capacidade de auto-concentração. Por isso, Love Travel at Illegal Sounds tanto pode cair nas graças dos que redescobriram o rock na última meia-dúzia de anos como daqueles que cresceram a saborear uns quantos cantautores da música feita ao longo da História do Reino Unido. Mas também há Ramones e Brian Wilson. Sortido finíssimo de canções.
(9) PG

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