07 dezembro 2005

Gypsy Kings e garrafas de cerveja

31 Songs

Já há algum tempo que andava para pegar nisto. Deve ainda ser do efeito "Alta Fidelidade", o livro, que comunica com qualquer melómano como poucos livros do escrevinhanço contemporâneo. É, com toda a certeza, a atracção natural por um livro com um título como "31 Songs" e um aspecto físico atraentíssimo, capa dura, pequenas dimensões, um aroma vintage que parece recordar coisas que não foram lidas.

Peguei finalmente no objecto. Sabendo, à partida, que as 31 canções que Nick Hornby escolheu para motivar pequenas prosas são, na sua grande maioria, ou atribuídas a músicos que esteticamente pouco me estimulam ou que desconheço de todo. Os Gypsy Kings enquadram-se ma perfeição na primeira categoria. Têm o mérito de agir sobre o meu sistema nervoso com rara eficácia. Imagine o gentil leitor o efeito dos apitos de ultra-sons sobre os canídeos.

Os Gypsy Kings vêm, neste caso, a propósito dos Teenage Fanclub. Perfeitamente lógico. Como um livro sobre canções, gostos, experiências e influências deve ter tudo menos uma objectividade exacerbada, percebe-se. A alusão é feita logo na elocubração sobre a primeira canção escolhida, "Your Love is the Place Where I Come From", que os Teenage Fanclub incluíram no álbum "Songs From Northern Britain" (1997).

A referência aos Gypsy Kings é para aqui chamada porque o grupo surge no livro acompanhada por uma referência a Lisboa. Tentando fazer luz sobre o processo mental que coloca determinadas canções na categoria das memórias perenes, escreve Nick Hornby, para surpresa nossa: "Há uma canção dos Gypsy Kings que me lembra ter sido bombardeado por garrafas de cerveja de plástico num jogo de futebol em Lisboa".

Há duas questões que me sinto impelido a partilhar: 1) se o nome em causa é o dos Gypsy Kings, percebe-se melhor a atitude vagamente hooliganesca de quem atirou garrafas de cerveja de plástico - provavelmente, os homens de "Bamboleo" também estimulam os nervos dos espectadores de bola; 2) ou eu tenho frequentado estádios de futebol muito bizarros ou não sei de todo em que recinto dessa natureza circulam garrafas de cerveja de plástico.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

4 comentários:

  1. Sr. Gonçalves
    O Nick levou a tal garrafada no estadio da Luz.

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  2. Ai sim?

    Deve ter trazido garrafas de cerveja de plástico de Inglaterra...

    Cheers!

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  3. A minha edição não tem - e graças a Deus ou a outro ser qualquer em quem não acredito - capa dura. Mas também não tem a mesma capa que essa. E não te esqueças da referência a Portugal através das criancinhas que cantavam e dançavam Nelly Furtado num consultório ou lá o que era em Londres.

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  4. Também já dei de caras com esse episódio, amigo Rod, mas aqui queria mais salientar o inusitado da relação Gypsy Kings / Garrafas de Plástico do que a referência a Lisboa por si só.

    Aqui entre nós, sou dado a achar altamente provinciana aquela postura tão comum de rejubilar com todas as micro-referências a Portugal espalhadas em discos, livros ou rótulos de shampoo. Aliás, esse é um bom mote para uma prosa que aqui colocarei quando me der na telha.

    Assim como assim, guardo na memória uma dessas referências como o topo de gama da inverosimilhança: há uns largos anos, quando Lisboa começou a ser falada em Inglaterra como "a nova Ibiza" (comparação que viria a mostrar-se abstrusa), a popularucha Mixmag publicou um artigo com dicas sobre Lisboa em que dizia, literalmente, que nós comemos torradas e sardinhas ao pequeno-almoço. Literalmente.

    Cheers!

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