02 dezembro 2005

Os melhores do ano e a boataria

NME

O caso chamou-me a atenção a partir do blog do meu estimado amigo Jorge Manuel Lopes, que numa penada dá pistas suficientes para acompanhar a telenovela feita à volta da lista dos 50 melhores álbuns do ano a publicar amanhã, sábado, pelo New Musical Express. Não deixam, no entanto, de acorrer à ideia alguns factos curiosos a partir desta historieta da treta.

O site Londonist começou por publicar um alegado furo jornalístico que versava basicamente sobre o seguinte: a direcção do NME, antes de publicar a lista dos melhores álbuns de 2005, teria retocado as votações dos seus jornalistas por forma a cumprir objectivos comerciais. O que na prática se traduz por retirar da referida lista as coisinhas mais obscuras, aquelas a que a indústria do disco não dá importância e em que, consequentemente, não investe (publicidade, passatempos, etc). Importa referir que o artigo foi retirado do site pelo seu editor depois das explicações do director do NME ao Guardian.

Esta questão não teria em Portugal um décimo da importância. Se por um lado isso é positivo - demonstra inteligência não aventar alarvemente velhas desconfianças motivadas pela proverbial dor de cotovelo -, por outro não deixa de causar relativa inveja a forma como em Inglaterra (no caso concreto) se dá importância à música, às edições, às listas, às preferências. A música e as tais miudezas circundantes, no fundo. Em Portugal nunca se viu nada disso fora de um núcleo identificado de melómanos arreigados.

As listas dos melhores discos do ano são uma tradição tão portuguesa quanto o Dia dos Namorados. Resulta, em Portugal, da histórica apropriação de um universo principalmente inglês e norte-americano. Quando Portugal viu pela primeira vez nascerem projectos editoriais ligados à coisa musical, e não vale a pena recuar mais do que à década de 80 do século passado, viu essencialmente a possível transposição de formas, fórmulas, hábitos e pontos de vista resgatados a publicações internacionais. Basicamente, os jornalistas que dissertam sobre música adoram listas. É um facto que deve aceitar-se sem discussão.

Simplesmente, em Portugal as listas têm um impacto sobre o consumidor rigorosamente nulo. Em boa parte porque também o interesse da indústria do disco a operar no país é tendencialmente nulo. Quanto dentro de uma casa não se conhece mais do que aquilo que se é obrigado a "trabalhar", é impossível pedir apego pela mais salutar competição estética. Nas principais editoras representadas em Portugal trabalham diversas pessoas, não todas, para quem música e pensos higiénicos com abas são praticamente a mesma coisa. Que ouvem, em exclusivo, os discos que profissionalmente aterram nas suas secretárias. Da música dos outros sabem, basicamente, coisa nenhuma.

O que leva a uma questão que pode colocar-se com base nesta historieta: como é que a coisa funciona em Portugal? No seu blog, Jorge Manuel Lopes explica como as coisas se processam no Blitz. Tenho, para o efeito, todo o prazer em sublinhar o que afirma: que, desde 2002, quando essas listas voltaram a ter alguma dignidade no jornal, aquilo que se publica é exactamente a súmula das preferências dos jornalistas da casa. Não era necessária a explicação. Por duas razões: por um lado, o referido desinteresse da própria indústria corta a possibilidade de qualquer "pressão" comercial; por outro, e isso é coisa menos objectiva, dá um tremendo gozo ao jornalista exercer no final do ano a sua plena liberdade de escolha. Se ao longo do ano houve "pressões" para que os Korn (exemplo) fizessem capa de uma publicação, o primado da isenção editorial pode mesmo suscitar uma reacção negativa à "pressão". Ficam os Korn (exemplo) de fora e não se fala mais no assunto.

No caso concreto do NME, nem o aplaudido porém marginal Simon Price, sob pseudónimo, deixa de contribuir para a teoria do embuste. Escreve ele num tópico do One Touch Football: "BLOC PARTY? Jesus fucking christ. No surprise that the NME writers' poll is fixed (I remember Allan Jones tinkering with the MM chart back in the day, too), but it's nice to have damning evidence. The readers' poll is blatantly fixed too. In The Darkness' big year, when they were winning every other poll in Britain, they failed to get within a sniff of a single NME Award. I put it to Conor that this was a little suspicious, and he just smiled at me". Refere-se a Connor McNicholas, director do New Musical Express. Que, ao Guardian, explica a elaboração da lista em pormenor: "The mechanics are a reflection of NME editorial policy. It's a very fuzzy process. We take a vote in the office; it's quite informal". Informação diferente transmite um porta-voz não identificado do jornal: "All the writers are asked for their top 50 albums of the year, which is then collated and passed to the editors".

Fica a lista do NME com os 50 melhores álbuns do ano:

50. Test icicles: "For Screening Purposes Only"
49. Dead Meadow: "Feathers"
48. Ladytron: "Witching Hour"
47. Sleater-Kinney: "The Woods"
46. The Duke Spirit: "Cuts Across The Land"
45. Shout Out Louds: "Howl Howl Gaff Gaff"
44. Field Music: "Field Music"
43. Engineers: "Engineers"
42. Sigur Ros: "Takk"
41. Nine Black Alps: "Everything Is"
40. Brakes: "Give Blood"
39. Vitalic: "OK Cowboy"
38. Autolux: "Future Perfect"
37. Circulus: "Lick On The Tip Of An Envelope"
36. The Bravery: "The Bravery"
35. Elbow: "Leaders of the Free World"
34. Rufus Wainwright: "Want Two"
33. We Are Scientists: "With Love and Squalor"
32. Queens Of The Stone Age: "Lullabies to Paralyze"
31. Bright Eyes: "I'm Wide Awake It's Morning" ou "Digital Ash in a Digital Urn" (confirmar amanhã)
30. Doves: "Some Cities"
29. Madonna: "Confessions On a Dancefloor"
28. Absentee: "Donkey Stock"
27. Kate Bush: "Aerial"
26. Super Furry Animals: "Love Kraft"
25. MIA: "Arular"
24. Oasis: "Don't Believe the Truth"
23. Hard-Fi: "Stars of CCTV"
22. Raveonettes: "Pretty in Black"
21. LCD Soundsystem: "LCD Soundsystem"
20. Editors: "The Back Room"
19. Coldplay: "X&Y"
18. Art Brut: "Bang Bang Rock'n'Roll"
17. The Magic Numbers: "The Magic Numbers"
16. British Sea Power: "Open Season"
15. Maximo Park: "A Certain Trigger"
14. Dungen: "Stadsvandringar"
13. The Rakes: "Capture / Release"
12. Devendra Banhart: "Cripple Crow"
11. The Cribs: "The New Fellas"
10. Gorillaz: "Demon Days"
9. Babyshambles: "Down in Albion"
8. Kanye West: "Late Registration"
7. Sufjan Stevens: "Illinoise"
6. The White Stripes: "Get behind Me Satan"
5. Kaiser Chiefs: "Employment"
4. Antony & The Johnsons: "I Am a Bird Now"
3. Franz Ferdinand: "You Could Have It So Much Better"
2. Arcade Fire: "Funeral"
1. Bloc Party: "Silent Alarm"

Truncada ou não, é uma lista "de compromisso". A administração adora ver Madonna. Os Circulus sabe Deus.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

1 comentário:

  1. Na verdade, a lista está o habitual do NME. Os mais falados durante o ano nas primeiras posições, um mix de novidades que tiveram menos atenção no resto. O que não invalida a gravidade da situação e da acusação.

    A questão que fiz no blog do JML era dirigida a Portugal como todo, e não ao Blitz. E isto porque acredito que há vozes (poucas, é certo) que podem influenciar cultos. Do estilo que criam histerismos na Aula Magna, CCB, etc. E por isso não me custa a acreditar que certas tabelas de fim de ano sejam rearranjadas por quem tem mais poder dentro das publicações.

    Quanto ao Blitz, para mim, infelizmente, é cada vez mais só os textos das críticas. O resto, por motivos óbvios, demitiu-se completamente da função de divulgador, e limita-se a reflectir o que está na berra. Seja Black-Eyed Peas, Madonna, Green Day ou Gwen Stefani.

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