16 janeiro 2006

Coisas que se escrevem e que me irritam

Alfabeto

Para quem não me conhece, que fique claro que sou uma pessoa muito sensível em relação à forma como a língua portuguesa é tratada. Não tem rigorosamente nada que ver com patriotismo serôdio, mas com picuinhice mesmo, com rigor apreendido junto de alguns jornalistas de velha escola que com uma vírgula fora do sítio eram capazes de, sem pruridos, afirmar: "Este texto está uma cagada".

Sou daqueles que não se importa nada que a música que em Portugal se faz seja cantada ou berrada em inglês, francês, alemão ou esperanto. Prefiro ver qualquer dessas línguas "assassinada" do que o português, aquela em que nos expressamos. No meu caso, no português escrito em particular. Também sou daqueles que retira, à cabeça, uns 70 por cento de respeitabilidade a qualquer empresa ou entidade que dá erros na sua comunicação escrita, seja ela publicitária ou o diabo a quatro.

É por isso que, sobretudo num contexto jornalístico, há coisas que me irritam verdadeiramente e que, infelizmente, tenho assimilado como doenças praticamente incuráveis, tamanha a teimosia de quem as pratica em não aceitar o teor ora erróneo ora aberrante com que juntam letras. Gostaria, nesta ocasião, de partilhar alguns exemplos dessas práticas pouco remomendáveis.

Patologia
"Para além de"

Medicação
Retirar da expressão o "para". É uma inutilidade e um desperdício de espaço.

Patologia
"Inúmeros (...)"

Medicação
Inúmeras são as coisas que não conseguem contar-se. As estrelas no céu são inúmeras. Os pares de sapatos numa montra não são inúmeros. Substitua-se, por exemplo, a palavra por "numerosos".

Patologia
"Há não sei quanto tempo atrás"

Medicação
Compreender a função do verbo "haver" nesta expressão e retirar o "atrás", uma vez que não se pode dizer "há não sei quanto tempo à frente".

Patologia
"Na minha opinião pessoal"

Medicação
Retirar da expressão a palavra "pessoal". Se a opinião é minha, há-de ela ser colectiva?

Patologia
"Música contagiante"

Medicação
No universo da escrita jornalística sobre música, isto é parolo e não diz rigorosamente nada. Evite-se e pronto.

Patologia
"Eventualmente, conseguimos não sei o quê"

Medicação
As traduções directas da língua inglesa dão nestas coisas. "Eventualmente" e "eventually" não têm nada que ver uma com a outra. Evite-se e pronto.

Patologia
"No fim do dia, blá blá blá"

Medicação
Exactamente a indicada para a patologia anterior. "No fim do dia" e "at the end of the day" têm uma relação tão próxima quanto a Torre de Belém e um molho de bróculos.

Patologia
"Os The National são uma grande banda"

Medicação
Retirar da expressão o "The". É exactamente o mesmo que dizer "Os Os National...". Excepção: The The.

Patologia
"A Maria, foi às compras"

Medicação
Retirar a vírgula urgentemente. Uma vírgula entre o sujeito e o predicado, num caso destes, devia dar direito a despedimento com justa causa.

Ir-me-ei, certamente, lembrando de mais alguns casos mais ou menos frequentes, mais ou menos aberrantes. Descansai. Partilhá-los-ei.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

4 comentários:

  1. Música contagiante!!!
    talvez seja mau gosto ou apenas uma figura de estilo!!!

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  2. Touché. No caso dos National o conselho aplica-se-me claramente, uma vez que usei a construção os The National em escrito recente. Tive dúvidas quando o escrevi. Na minha cabeça a ideia era distinguir os grupos que usam o artigo daqueles que não o usam.

    De um modo geral concordo contigo. E subscrevo a drástica medida de despedimento com justa causa.

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  3. Nos exemplos que utilizaste em relação às traduções da lingua inglesa poderias ter explicado quais as diferenças.

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  4. Já agora aprende tu, também, a não dar erros crassos. Ficava-te bem e caías menos em paradoxos ridículos...
    Um exemplo (entre muitos): "Inúmeras são as coisas que não conseguem contar-se" (escreveste tu).
    Ora, cara petulância blogosferenha, as coisas não se contam a elas mesmas, daí que a frase correcta fosse: "Inúmeras são as coisas que não se consegue contar". ("que não se CONSEGUE" e não "que não se CONSEGUEM", pela mesma razão, e porque o sujeito é o impessoal).
    Sugestão: ocupa o espaço da blogosfera com algo de útil e acertado, em vez de jactância mal consubstanciada...!
    Saudações!
    PutasAoPoder!

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