18 novembro 2005

No teatro com Santana

Antes Eles Que Nós

"Antes Eles Que Nós"
Teatro Municipal S. Luiz, Lisboa
Até 10 de Dezembro

Este texto não tem qualquer utilidade. Pelo menos no sentido em que é habitualmente aferida a utilidade de um texto que tem como mote uma peça de teatro. Este texto não é informativo, é muito mau de um ponto de vista jornalístico e, mais importante, não é fácil ajudar quem quer que seja a decidir comprar um bilhete para uma peça que tem todas as sessões esgotadas até sair de cena.

Quando o dia é de sorte, é mesmo de sorte. É um gozo avassalador ver "Antes Eles Que Nós" na mesa ao lado da de Pedro Santana Lopes. Sobretrudo quando se conclui que as três personagens morreram num acidente com um táxi no Túnel do Marquês. Foi o que me aconteceu. Foi um dia de sorte, não me acontece sempre.

"Antes Eles Que Nós", a peça, é um exemplo perfeito de como a comédia é um género revitalizável. Que a dita se abre com lascívia para quem tem dedos para escrevê-la. Nisso João Quadros, autor do texto, não só sublinha a sua posição como dono de uma das línguas alarves mais deliciosas do "panorama" (salvo seja), como se mostra capaz dessa coisa olímpica que é colocar no papel, para ser encenada, uma história.

Uma história é uma coisa dificílima de contar. Uma história que mistura o mais desbragado nonsense com uma boa dúzia de setas envenenadas dirigidas a pessoas que nos habitam o quotidiano (de Alberto João Jardim a José Cid, de Manuela Moura Guedes a Filipe La Féria) é ainda mais difícil de contar. Quando, sem ter fumado nada de confiscável, um cidadão que se considera inteligente se ri até doer com o conteúdo de um diálogo, esse diálogo tem sérias possibilidades de ser de facto hilariante. João Quadros é-o.

Depois andam em cima do palco três pessoas mais do que familiares ao tal cidadão bastante comum. Dois deles, Bruno Nogueira e Maria Rueff, são apenas os actores de humor mais brilhantes das respectivas gerações. Manuel Marques, por seu turno, tem piada natural. Basicamente, os três fazem de si próprios, mas mortos.

Três artistas mortos à espera da entrada no Inferno, num Purgatório com sofás de design que escondem, debaixo das almofadas, desde tabaco a um revólver. Curiosamente, um dos delirantes ambientes da peça passa-se fora do Purgatório: Bruno Nogueira faz de Deus ganzado enquanto cria "o português". É, simplesmente, glorioso.

O que funciona como um excelente pretexto para afirmar categoricamente que Bruno Nogueira, apesar de um naturalmente curto trajecto nos palcos de teatro, é um fenómeno raro. É um daqueles escassíssimos casos de absoluta sintonia com os dias que por si passam, dono de uma naturalidade provocadora que faz com que pareça sempre não estar a representar. Foi isso, precisamente, que há tempo considerável me deixou extasiado na sua primeira aparição a que assisti no desequilibrado "Levanta-te e Ri".

No meio de uma multidão geracional que de um momento para o outro se achou capaz de fazer rir o cidadão, Bruno Nogueira está sem esforço muito acima dos outros. Claro que é pontualmente vítima do cinismo e da sobranceria de quem tem dificuldade em aplaudir o talento alheio, mas até nisso ele é de uma elegância desarmante. Só para nos esclarecermos, gosto muito do Bruno. É uma daquelas pessoas cujo número de telefone gosto muito de ter. Alguma coisa contra?

Eu disse que esta prosa não era útil nem jornalística. É apenas o relato de um serão de sorte. Rir até doer com Pedro Santana Lopes na mesa do lado é algo que tem que ser partilhado, digo eu.

Mas isto pode ser do meu ouvido, que é 1 pouco mouco.

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